A culpa é dos telômeros
Li que já nasceu a criança que viverá 150 anos. Ainda não se sabe quem é nem se isso será um ganho ou um pesadelo para ela. Certo é que a ciência está no encalço do aumento da expectativa de vida e também do bloqueio ao envelhecimento.
Dentro de algum tempo, a adolescência terminará aos 45 anos, quando, então, o pessoal sairá de casa e tentará arranjar um emprego. O grande problema continua sendo o maldito desgaste do corpo e das células.
Já é praticamente certo que existe um vilão.
E esse vilão não é o Naji Nahas, embora não fosse má ideia meter essa culpa nas costas dele também e do juiz que concedeu reintegração da posse à sua massa falida em Pinheirinho.
O vilão pode ter sido identificado pelos cientistas.
Ele tem nome.
Não sei se tem sobrenome também.
No Brasil, com certeza, terá apelido: Tel. Os vilões podem ser os telômeros. Isso mesmo. Nem desconfiava?
Nem eu, claro.
Utilidade pública só prestada por uma coluna como esta, que oferece serviços inestimáveis aos leitores: os 23 pares de cromossomos possuem extremidades protegidas por fileiras de DNA (se dependesse de mim seria ADN). Essas estruturas são os telômeros. Ah, bom! Muito prazer. E daí? Bem, daí que cada vez que uma célula se divide – elas são piores do que alguns partidos brasileiros em se tratando de divisões – os telômeros encolhem um pouco.
O sujeito morre quando não há mais como dividir seus telômeros. A proximidade da morte é quando aparece um telômero com perna curta. Assim fica mais claro entender como marchamos para o fim. Estou levando na brincadeira, mas é sério. A gente sempre culpa o coração, os pulmões, os rins, o fígado e por aí afora pela morte. Pois é hora de pensar nos telômeros.
A identificação dos vilões é um bom caminho para tentar se chegar a uma solução. Só espero que os cientistas, se conseguirem controlar o encurtamento mortal dos telômeros, não venham a ser culpados pelo rombo da previdência do futuro próximo.
Nossos netos viverão o dobro do tempo. Poderão ver o BBB148 e o centésimo título brasileiro consecutivo do Corinthians, salvo se houver alternância com o Flamengo. Nem tudo, porém, será assustador assim. Haverá mais tempo para vadiar, ver o pôr do sol, não necessariamente o do Guaíba, e conversar com os amigos. Será que os nossos descendentes verão outros episódios lamentáveis como o de Pinheirinho? Depois de Eldorado do Carajás, do massacre da Candelária e do Carandiru – a lista pode ser interminável –, Pinheirinho entra na galeria da barbárie verde-amarela em lugar de destaque.
Parece que os telômeros dos que cometem brutalidades injustificadas como essa encurtam lentamente. Deveria ser o contrário.
Vamos viver mais. Para chegar lá precisamos lutar contra a divisão desenfreadas das nossas células, contra o encurtamento dos nossos telômeros, contra a especulação financeira internacional, contra as decisões absurdas de justiça e até contra a falta de sensibilidade dos donos do poder. Estamos avançando muito quanto aos telômeros.
Como diz o leitor Fernando Trípoli, telômeros remete a Teló-meros.
Isso certamente explica o sucesso de Michel Teló.
Ainda que os teló-meros encurtam em poucos meses.