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Tempo de espera

Como nos relacionamos com as mudanças

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Diz-se que há um tempo para tudo.

Um tempo para viver e morrer. Mas esse tempo é o máximo e o mínimo de um entretempo que se eterniza ou apaga-se sem avisar. Um tempo para semear sem colher. Outro, para chorar a colheita derramada. Um tempo luminoso, outro tempo sombrio. Um tempo para sonhar e outro para se conformar. Sim, conformar-se com a passagem do tempo, com o fim dos tempos, com a aridez do imaginário, com a agonia do outono, com as tardes mais curtas, as noites mais longas, as manhãs geladas, os ventos mais sibilinos, o ocaso da poesia, o fim das utopias.

      Há um tempo para grandes projetos e ambições e outro tempo para se conformar com o próprio tamanho. Afinal, somos, em geral, tão pequenos diante da enormidade do universo. Há um tempo para o ressentimento e outro para admitir: talvez não se tenha feito o melhor, quem sabe o outro é mesmo melhor. Há um tempo para falar, discursar, berrar aos quatro ventos o certo e o errado. Há outro tempo para ouvir, tentar ouvir, aprender a escutar. Há um tempo para querer vencer, outro para chorar as derrotas e outro ainda para comemorar as pequenas coisas e a grandeza das estações.

      Há um tempo para lamentar o fim do verão e outro para descobrir a suave beleza do outono. Um tempo para sentir o frio queimando e outro para ser flor na primavera. Há um tempo para engatinhar, outro para correr e outro ainda para desacelerar. Um tempo para pisar a folha caída e outro para sentir o cheiro da planta. Um tempo para subir na árvore e outro para descansar na sua sombra. Um tempo para escrever tratados e outro para tratar da saúde. Há um tempo para competir e outro para rir destas guerras improdutivas. Há um tempo para canalizar o rio e outro para andar na sua margem como um filete de água que se perdeu da correnteza e admira a brancura do leito. Um tempo para se afogar de mágoas e outro para nadar.

      Um tempo para escrever crônicas e outro para sentir essa vontade crônica de exprimir o que flui na alma e não sabe onde desaguar. Há um tempo para querer iluminar o mundo e outro para ser vela bruxuleando no meio da noite enquanto homens semeiam tempestades e dias escuros. Há um tempo para ser eleito e outro para duvidar dos eleitos. Um tempo para morrer de amor e outro para amar até morrer. Um tempo para ser carregado nos braços e outro para distribuir abraços, apertar nos braços, beijar.

      Há um tempo para formar, informar, educar. Outro tempo para distrair, entreter, enternecer, encantar. Todos esses tempos podem ser o mesmo tempo embora por falta de tempo cada um demore para compreender. Há um tempo para aprender a ser homem e outro para tentar voar, ser pássaro, brisa, poema, arco-íris, magia, conto de fadas, gol de letra, canção. Há um tempo para bater pé, outro para bater pernas, outro ainda para abrir os braços, balançar a cabeça, esfregar os olhos e espantar-se com a beleza da moça que passa com seu cabelo vermelho e do menino que olha a bola como se ela fosse a lua nas suas mãos. Há um tempo para chorar de alegria e outro para temer o silêncio, esse buraco branco que cala as vozes que cantam.

* Na foto, blogueiro com Edgar Morin, que fará 98 anos em julho.