Juremir Machado da Silva

Tempo, de Piglia a Bauman

Tempo e sentido

 

Tem dias que a gente fica sem saber o que dizer diante do destino, do acaso e das curvas da vida.

Chegamos a ficar comovidos com a pequenez do ser humano.

O que é o destino? Aquilo que inevitavelmente acontecerá ou que se tornou inevitável por já ter acontecido? Se eu fosse me dedicar à filosofia, com o objetivo de escrever uma Opus Magnum improvável, no melhor estilo de Jean Paul Sartre, em O Ser e o Nada, ou de Martin Heidegger, em Ser e Tempo, trabalharia com este título: Tempo e sentido.

Agora só me falta a obra.

Para mim, esses dois termos sintetizam a labuta do homem na sua curta existência.

Como lidar com o tempo? Como lhe dar sentido? Praticamente tudo o que fazemos remete a uma espécie de terapia ocupacional. Vencidas as necessidades de sobrevivência, tudo é mais é passatempo. Ou seja, como dar sentido a esse tempo de existência tão curto e tão longo? As paixões e obsessões humanas são formas de preencher a imensidão paradoxal do pouco de tempo que nos é dado viver. Um dos piores inimigos do homem é o tédio, outro nome para a falta de sentido e para o excesso de tempo disponível. Os existencialistas já sabiam disso.

A sociedade atual, pós-moderna ou hipermoderna, oferece um modelo de existência para o homem sem finalidade: o consumo. O homem pré-moderno ia à guerra e morria cedo. O homem hipermoderno volta cedo para casa. Afora as distorções do sistema, ainda generalizada em algumas partes do mundo, vive-se mais, trabalha-se menos tempo e não é mais necessário morrer em guerra. A aventura se foi. O que colocar no seu lugar? Espetáculo, consumo e lazer. É fundamental distrair o homem atual. A tecnologia vai libertar quase totalmente o homem do trabalho. Produzirá desemprego e novas oportunidades. O que fará o homem na sociedade pós-trabalho? Ela virá.

O escritor argentino Ricardo Piglia, que morreu na semana passada, cravou esta frase que me obceca: “Os paranoicos também têm inimigos”. Meu mestre Michel Maffesoli sugere nas entrelinhas dos seus livros que o homem dribla o tempo, o sentido e as suas paranoias inventando formas de convivência, vibrando junto com outros em rituais de comunhão religiosa ou profana, jogando, brincando, apaixonando-se, tribalizando-se, aderindo provisória ou definitivamente a identificações. Sem esse lado lúcido, nossa parte demens nos engoliria.

Éramos faber (homens da produção). Se não formos ludens, seremos cada vez mais demens. Alguém já disse que passamos por quatro etapas na vida. Na primeira, quando crianças, dependemos da família para sobreviver e crescer. Na segunda, jovens, vivemos para os amigos. Na terceira, adultos, dividimos tempo e sentido com os colegas de trabalho.

Na quarta, velhos, retornamos aos nossos, à família, quando ainda temos uma.

Fim de ano provoca desespero em quem, na terceira ou quarta fase, descobre-se sem colegas ou sem parentes. É simultaneamente o tempo dos reencontros e da solidão.

As redes sociais fornecem amigos como os do facebook. O sociólogo Zygmunt Bauman, teórico do amor e da modernidade líquidos, que morreu nesta semana aos 91 anos de idade, espantava-se com os milhares de amigos de um jovem qualquer no Face. Em toda a sua longa vida, afirmava, não teve cinco mil amigos. O pragmatismo ensina: melhor amigos virtuais do que ausências reais. Se a velhice é o tempo de voltar para os seus, a idade produtiva é a época de ampliar os laços e não de se fechar na corporação. Mas isso exige mudar de imaginário. Bauman imortalizou o conceito de líquido. Amor líquido, modernidade líquida, vida líquida. Tudo escorre, tudo corre, tudo se perde, tudo volta.

A primeira pista para saber por onde escorremos é esta: o consumismo não é a satisfação de necessidades primárias pelo consumo, mas um modelo total de ser e estar no mundo gerido de fora. Um estilo de vida. Uma administração da sua existência pela lei da oferta e da procura, sabendo-se que, por um estranho mecanismo, a procura cada vez mais coincide com a oferta. Desejamos aquilo que o mercado nos sugere desejar. Cada um de nós nesse sistema é tratado de acordo com a sua taxa de retorno. A cada um conforme a sua fama, o seu brilho, o seu talento e o seu poder aquisitivo.

De cada um conforme as suas ambições e suas possibilidades.

Não existe sistema melhor?

Possivelmente.

Para Bauman o capitalismo é um sistema parasitário.

Um parasita que se apresenta como remédio.

O que isso atesta? O fracasso da humanidade em produzir, depois de milhares de anos, um modo mais justo de organização social? Perguntar ofende. Faltam boas respostas. Sobram paranoias, perseguições, inimigos e poetas desempregados.

 

Ontologia

 

Só posso imaginar a morte

Como a solidão eterna

E é isso que me assusta,

Esse silêncio absoluto,

Essas pegadas de gaivota

Num tempo resoluto

Da poeira universal

Nuvem que não se move

Voz que jamais ecoa

Alma que nunca voa

Para abrir a porta

Estar só para sempre

Na imobilidade do ser

Sem poder esquecer

De si mesmo e da sorte

Haverá maior sofrimento?