Juremir Machado da Silva

Tempo de se fazer de louco

Tempo de se fazer de louco

Sinal dos tempos

Leio nos jornais que a promotora Deborah Guerner, envolvida no mensalão do DEM de Brasília, teve realmente “aulas” para fingir-se de louca e assim tentar escapar de uma pena. Ela não foi boa aluna.
A orientação foi dada por psiquiatras de São Paulo. Que loucura!
Sou de um tempo, não muito distante, apesar de já ter moça levantando para me dar lugar de idoso em ônibus, em que psiquiatras tentavam curar doença mental. Um tempo em que médicos faziam um juramento e tratavam de cumpri-lo.
Era o juramente de Hipócrates. Pelo jeito, para alguns, virou juramento de Hipócritas.
O que aconteceu? Apagou a luz?
Não faz muito tempo assim, o DEM era o partido, aliado do PSDB, que detonava o mensalão do PT. Não faz muito tempo assim o PT era o campeão da ética. Não faz muito tempo tampouco que o PSDB era um partido de centro-esquerda, formado por gente que combateu a ditadura militar da qual o DEM, ex-PFL, dissidência do PDS, ex-ARENA, fora parceiro. O tempo passa. PSDB e DEM pensam em fundir-se.
Sou de um tempo em que dentista não seccionava, como andou acontecendo, a língua de um rapaz com desejo de ser um réptil. Sou de um tempo em que médico não fazia cirurgia estética desnecessária só para ganhar dinheiro a atender capricho de cliente. Sou de um tempo em que médico não tinha cliente, mas paciente.
Sou de um tempo em que pessoas instruídas sabiam ler e interpretar textos. Comentei um livro, Indesejáveis, do historiador Fernando Rodrigues, autor que já foi até premiado pela Biblioteca do Exército. Ele prova com documentos, portarias secretas assinadas pelo então ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, que o Exército brasileiro adotou políticas restritivas à entrada de negros, judeus e muçulmanos na Academia Militar de Realengo durante o Estado Novo. Ele jamais disse, nem eu, que nunca teve negro no Exército. Nem que o Exército expulsou os negros que tinha nas suas fileiras durante o Estado Novo. Disse e provou que o Exército brasileiro contraditoriamente adotou política racial discriminatória. Muito feio. Sinal de outros tempos.
Osvaldo Aranha, que depois votou pela criação de Israel, assinou resoluções secretas restringindo a entrada de judeus no Brasil durante o mesmo Estado Novo.
É história, documentos, livros.
Militares e outros leitores me bombardeiam com dois tipos de observação: dão exemplos de negros no Exército e alegam que a discriminação fazia parte dos valores da época. Um deles chegou a dizer que Eurico Gaspar Dutra foi apenas mais um a ter ficado encantado com o discurso do fascismo europeu. Teve o peito de ir adiante e perguntar: quantos de nós não teriam feito o mesmo? Que tempos estes, hein!?
Aos primeiros:
Quem disse que os negros foram expulsos do Exército?
Quem disse que nunca houve negros no Exército?
Aos demais:
Milhões de pessoas lutaram contra as discriminações da época tanto do Estado Novo quanto do fascismo europeu.
Outro assunto de interesse dos militares.
Escrevi sobre um livro dando conta de um “campo de concentração em Itaqui”, logo depois do golpe de 64.
Militares me escrevem dizendo que a repressão só começou depois do AI-5, em 1968. Só tenho uma resposta: vocês estão brincando! A repressão começou em abril de 64. Ela foi terrível e cruel pelos fundões do Brasil.
Outros militares, repetindo o refrão, me escrevem para alegar que salvaram o Brasil da ditadura comunista e dos terroristas de esquerda.
Isso é o que dizem.
Na prática, impuseram uma ditadura de direita contra uma democracia que estava executando reformas sociais importantes num tempo de gigantescas desigualdades e de povo miserável (pesquisa da época mostrou que 72% da população das oito maiores capitais brasileiras eram a favor da reforma agrária de Jango), praticaram o terrorismo da tortura, das execuções, dos desaparecimentos e até dos atentados, como o fracassado golpe do Riocentro, em 1981, quando uma bomba destinada a simular um atentado de esquerda explodiu no colo de um milico incompetente, e autoanistaram-se em 1979, precavendo-se de condenações.
Para satisfazer o reacionarismo dos que haviam cantado "Dom Jaime é nosso pastor, Lacerda e Adhemar nossos profetas", os EUA nossa garantia", em 15 anos, processeram 17 mil brasileiros, prenderam 3613, e torturaram 1843.
É só ler "Brasil, Nunca mais".
Perguntam onde quero chegar: à verdade.
Exagero? Perguntem aos documentos.
Terceiro assunto.
Escrevi sobre o terrível fator previdenciário. Critiquei essa invenção perversa do governo FHC.
Leitores me enviam ressalvas: O PT não derrubou o Fator Previdenciário apesar da luta de Paulo Paim.
É exatamente o que digo na minha última frase, citando um critico do governo FHC e dos governos petistas: nada mais tucano do que um petista no poder.
Será que alguns leitores estão apressados?
Será que, embora isso não se refira aos leitores citados, o analfabetismo funcional está se alastrando?
Sou de um tempo em que se fazer de louco era safadeza. Em alguns casos, dava cadeia. Fechada.
Só falta alguém dizer que estou chamando todos os médicos de hipócritas e de desonestos.
Como se vê, bem pensado, faz sentido que moças me oferecem o banco dos idosos no ônibus. Que tempos!