Temporada de greves
Paris e Londres pararam ontem.
A França foi junto.
Eis a diferença entre brasileiros e europeus: a greve.
Os funcionários do metrô de Londres cruzaram os braços contra um projeto de supressão de 800 postos de trabalho. Nada mais justo e digno.
O Jornal do Brasil, online mas sempre conservador, noticiou assim: “Greve no metrô de Londres prejudica milhões de pessoas”. Eta midiazinha brasileira pelega!
Mais de um millhão de franceses foram às ruas contra o plano do governo de direita de Nicolas Sakorky de reforma do sistema de aposentadorias. O jornal “Le Monde” referiu-se à greve geral deste modo: “Aposentadorias – governo é acusado de não ter sido sincero nas negociações”. Bem diferente, não é mesmo?
O que pretende o governo francês: aumentar gradativamete a idade minima da aposentadoria para 62 anos (quatro meses por ano até 2018), sendo que cada trabalhador deve contribuir durante 41,5 anos. A aposentadoria pelo teto passaria de 65 para 67 anos de idade. Um dos pontos mais controvertidos diz respeito à intenção do governo de acabar com o dispositivo que permite às mães de três filhos aposentarem-se depois de 15 anos de trabalho. Por aqui, ninguém divulga esse tipo de benefício, que é para não dar ideias e fazer de conta que nada disso existe mais na velha e “atrasada” Europa.
De quebra, Sarkozy quer aumentar impostos.
A alíquota mais alta do imposto de renda passaria, em 2011, de 40 para 41%. Viram? Entenderam? 41% sobre quem ganha mais. Parem com esse papo de que o Brasil tem as mais alto impostos do mundo. Os europeus, na verdade, tem uma estranha concepção de mundo: acham que trabalham para viver, não que vivem para trabalhar. Possuem também uma bizarra interpretação do papel do Estado: deve estar a serviço de todos. Não há mais como bancar tantos “privilégios”? Os Estados estão quebrados? Falso, respondem economistas, políticos de esquerda, sindicalistas e outros especialistas. O que se deve fazer? Realocar recursos. Cortar, por exemplo, gastos militares. Fazer valar a solidariedade social global. A questão, garante os adversaries de Sarkozy, é escolher.
A mídia francesa faz greve junto. Nota do jornal “Le Monde”: “Por causa da greve que atinge a totalidade dos jornais franceses, Le Monde de 8 de setembro não poderá ser impresso”.
Que tal? Por aqui, quase toda a mídia estaria do lado governo, qualquer que fosse o governo, metendo o pau nos grevistas “irresponsáveis”, “anacrônicos” e “corporativistas”.
A imprensa brasileira continua a ser uma das mais conservadoras do mundo.
Vê como privilégio quase toda conquista social. Vive, obviamente, em boa parte da publicidade estatal. Não se constrange. Se duvidar, apoia algum projeto de eliminação de ferias pagas, FGTS e outros “privilégios” introduzidos ao longo do tempo desde a “ultrapassada” CLT de Getúlio Vargas.
Nunca vi num jornal brasileiro uma manchete mais ou menos nestes termos: “A grave é justa e necessária”.