Acontece de certas coisas serem unidas por uma diferença.
Não é um caso dos treinadores neotáticos.
Ele se unem por um conjunto de aspectos semelhantes.
Para ser um treinador neotático, porém, não é preciso compartilhar todos os elementos que definem o conceito.
Também não é absurdo que treinadores tradicionais adotem algumas práticas neotáticas sem que isso os converta em neotáticos. Há elementos exaustivos. Outros, nem tanto. Tudo depende de dosagem.
A principal característica do neotático é a hipervalorização da tática. O neotático crê. A fé não exige prova. Só provação.
Cada qual com a sua tática, mas todos crentes de que a tática é o elemento central.
O treinador neotático acredita em teoria, estudo, mesmo que não tenho estudado muito, modernidade, cientificidade e planejamento. Eis tudo: planejamento e ciência. Tudo se explica por macroestruturas. Jamais pelo imprevisto.
Outro fator de unificação dos neotáticos é a crença de que os jovens, ou novos, fazem melhor que os antigos.
A defasagem começa na linguagem e termina no esquema tático.
O noetático acredita na supremacia do desempenho sobre o resultado.
Aposta que o resultado, como consequência da modernidade, da inovação, da ciência e do planejamento, deriva acima de tudo da estratégia adotada pelo treinador. O jogador executa aquilo que o treinador neotático concebe.
O treinador tradicional sabe que entra com 5% do que acontece dentro de campo.
O neotático não se contenta com menos de 50%.
O neotático adota, com diferenças de treinador para treinador, uma nova linguagem, uma nova terminologia.
O neotático desconfia da intuição, do dilentantismo e do autodidatismo.
A principal escola neotática é a espanhola, melhor, catalã, criada por Guardiola.
Nela, a posse de bola, o goleiro que joga com os pés, os toques laterais e a proibição de levantar a bola são dogmas.
A Bélgica também desponta como escola neotática.
Mas existem estilos neotáticos mistos ou menos dogmáticos.
O professor Renato Portaluppi, representante da velha guarda, apesar de ser de uma geração intermediária, apropria-se de alguns elementos do neotaticismo, mas, no conjunto, permanece longe da conversão. O seu apreço por Jael é um sinal de que se mantém independente e pronto a frustrar adeptos do noetaticismo mais puristas. As suas tiradas de humor contra os que se preparam na Europa fazem dele um herege. As suas apropriações neotáticas, no entanto, dão-lhe grife.
Ele venceu contra os neotáticos. Mas já se diz que venceu como neotático independente ou que não tinha sido identificado.
A história dos vencedores é sempre reescrita para apagar o que não convém.
A Copa do Mundo da Rússia jogou um balde de água fria no neotaticismo, apesar da ótima geração belga.
Predominaram a retranca e a bola alta oriunda de falta e escanteio. As defesas espanaram sem constrangimento.
Goleiro que se exibiu, como o francês na final, pagou mico.
Os principais neotáticos brasileiros estão em baixa e desempregados: Fernando Diniz, Roger e Jair Ventura.
Ventura é um neotático dissidente ou singular. Faz parte do conjunto por aproximação geracional. Um neotático por acidente sem saber da sua condição. Salvo quando disserta ou sai da armário, quer dizer, da casamata.
O mestre dos neotáticos do Cone Sul é o professor Aguirre.
Bielsa é neotático. Sampaoli já foi neotático idolatrado. Começou a ser odiado quando confessou que não estudava e que era pura intuição. Ruiu na Copa sob a secação dos antigos admiradores. Osório brilha no firmamento neotático.
O neotático purista faz rodízio de jogadores, bota centroavante de lateral, consulta seus analistas de desempenho de hora em hora e fala tatiquês com desenvoltura e tesão. Aguirre anda comedido. Não é fácil ser neotático em tempo integral.
Os neotáticos são artistas de vanguarda, experimentalistas, ousados. Os seus times fazem coisas interessantes.
O único problema é que quase não ganham.
Comparando com literatura, é como ler um discípulo de Joyce ou Guimarães Rosa. Muito prosa e pouca poesia.
O futebol é muito tradicional: só o resultado interessa.
Odair está melhorando. Quanto menos ele faz, mais o Inter vai melhor.
O que ele quer ser quando crescer? Vitorioso ou neotático?
Cada jogo dirá.
Tite é um neotático dissimulado que amarra as calças anacronicamente acima do umbigo.
Como não pode se esbaldar no campo, por falta de coragem e compromisso com resultado, deita e rola nas entrevistas.
Esta é um esboço para uma teoria geral do treinador neotático.
Um tema apaixonante para um pós-moderno como eu.