Terei de virar herói?
A caminho do heroísmo
Ando muito ocupado.
Estou terminando meu livro sobre a Legalidade. Um ano depois de ter escrito o mais importante livro de História do Rio Grande do Sul nos últimos 50 anos, “História regional da infâmia – o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras, ou como se produzem os imaginários”.
Continuo modesto. É a minha natureza. Mas disposto a me sacrificar pela pátria. Acho que terei de virar herói.
Será que o Elio Gaspari e eu teremos de salvar sozinhos o Brasil de uma tragédia? O Elio tem feito a parte dele. E vocês? Os políticos estão arquitetando o maior golpe depois daquele famigerado, apoiado pela mídia, de 1964.
O novo golpe é terrível e dissimulado. Chama-se voto em lista fechada.
O argumento dos políticos é enganador: fortalecer os partidos. A quem interessa fortalecer os partidos dessa maneira que tira do eleitor o direito de votar em candidatos, em pessoas, em nomes, em gente? Interessa aos políticos e aos seus partidos. Por essa forma de escolha, o partido indica os nomes dos candidatos por ordem numa lista.
O eleitor vota numa sigla. É golpe. Nada há de errado em votar em pessoas em sociedades abertas, democráticas e baseadas na liberdade individual. É importante fortalecer os partidos? Sim. Por qualquer método que não seja o da lista fechada. A lista fechada fortalecerá os caciques, a corrupção interna nos partidos, os jeitinhos e uma casta, a dos donos dos partidos. O tempo dos partidos mais fortes do que os indivíduos já passou. Foi-se com o comunismo e com o fascismo. Em sociedades democráticas e complexas, partidos são estruturas para indivíduos com ideias.
Tiriricas serão úteis na cabeça de uma lista fechada para atrair votos para caciques com força interna e falta de votos.
É pura enganação.
Em quantos países existe o sistema puro de lista fechada?
A reforma política em discussão tem apontado um único caminho realmente interessante e justo: o distritão. Os mais votados são eleitos e acabou. O Rio Grande do Sul seria um distritão com direito a determinado número de representantes. Os mais votados levam. A ideologia deve ser contemplada com uma boa associação entre indivíduos e seus partidos. Estes devem ser indicativos do que os candidatos pensam e vice-versa.
A eleição é um contrato. Elegeu-se por um partido, fica nele até o fim do mandato. Quer mudar para concorrer novamente? Larga o mandato, no período de inscrições eleitorais, e vai em frente. Nem casamento é para sempre. O eleitor compra o pacote. Mas não um pacote fechado de nomes.
Os partidos oferecem um cardápio de candidatos. Os eleitores escolhem uns e rejeitam outros. Esse é o jogo.
O tempo das ideologias passou. Estamos no tempo das ideias.
Se o golpe continuar prosperando, entrarei em contato com o Elio. Proporei que nos imolemos em praça pública em defesa do eleitor de escolher seu candidato e não ter de carimbar uma lista com nomes que lhes sejam indigestos.
Se o Elio não quiser se imolar, por ser um ato radical, proporei que comandemos um movimento inovador com a participação da juventude, todos de caras pintadas. E pelados. Que nos tirem tudo. Menos o direito inalienável de votar em pessoas que nos pareçam representar ideias interessantes. Pacote fechado, nem de televisão. Estamos na sociedade gasosa. Viva o “la carte”. Se não barrarem esse golpe, sairemos pelados. Tomem cuidado!