Juremir Machado da Silva

Tese 205: o fim do livro e de uma civilização

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Pelo jeito, os Maias tinham razão: 2012 fecha um ciclo, um ciclo solar para um modo de produção e sem luz para todos os que foram sacrificados por ele. Morre, embora vá permanecer vivo como um fantasma por algum tempo, o velho capitalismo garantido nas suas trocas comerciais pela lei sustentada pela força dos aparelhos repressivos, salvo no mundo concreto dos objetos e das relações presenciais. Morte do império simbólico da lei no virtual. Fim da ideia de propriedade intelectual. Retorno da dialética dada por morta: o capitalismo cavou a sua sepultura, só que o coveiro não é o proletariado, mas o internauta. O real capitalista assassinado pelo virtual. Retorno definitivo da aura cuja desaparecimento fora denunciado por Walter Benjamin: o encontro, a palestra, o show, a visita ritual do turismo ao museu, manifestações presenciais, como derradeiro espaço do valor e do pagamento pelo trabalho. Estranha coincidência entre a atribuição de valor – vale pagar por isso – e a impossibilidade de não pagar em vista da ostensiva presença da força física como lastro-ouro de uma regulamentação extinta no virtual. O reconhecimento da lei tinha dois eixos: a punição e a conscientização. No virtual, a conscientização, essa introjeção do valor, pela educação, esse não posso e não devo fazer para não prejudicar terceiros, não posso me apropriar do trabalho alheio, desaparece, substituída pela ideia de reinvenção das relações. Se a punição não pode, no limite, exercer sua força, não há mais aceitação da norma, salvo a da netiqueta, esse código de honra moralmente superior: não falar aos gritos escrevendo em letras maiúsculas. A passagem ao hiperespetacular é uma rede articulada em vários nós lineares ou não. Nada impede a queima de etapas: avanço tecnológico, fim do direito autoral, fim do livro impresso, abolição da propriedade privada intelectual, fim da escrita, fim do livro virtual, retorno absoluto ao oral, aceleração da imagem, consagração total de uma cultura do oral e da imagem em condições técnicas superiores, supremacia inesperada da mídia, que volta pelas janelas virtuais, revanche dos emergentes contra a longa e devastadora dominação das velhas culturas da escrita, instauração da lógica comercial do acesso, separação dos modelos mercantis do real e do virtual, confirmação do objeto como mercadoria e do imaterial como valor de uso.

Fim, para bem ou mal, de uma ideia de civilização.

Fim e recomeço.

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