Conta-se que ainda nos anos 1950 um antropólogo britânico espantou-se com o costume de certo povo de consultar as árvores antes de qualquer decisão importante. O douto teria dito: “Maravilhosamente irracional”. Os ocidentais sempre viram os nossos costumes como naturalmente racionais. Estou vendo a série da Netflix “The Crown”, história da rainha Elizabeth II da Inglaterra. A monarquia sem poder é algo interessante, como certos insetos ou borboletas. O primeiro-ministro fica sabendo de algo grave e exclama: “Preciso ver a rainha”. Vai. A rainha ouve atentamente, sem nada poder decidir, sem poder real de opinião, e, ao final, despede-se com uma fórmula de civilidade.
Estranho ritual. Uma vez por semana, o chefe de governo, que tudo decide, visita a chefe de Estado, que nada muda. Os defensores da instituição garantem que ela dá estabilidade à nação. Não entrarei no mérito da ocupação de um cargo público por hereditariedade. Elizabeth II, ao assumir o trono, queixou-se de que nada sabia, não havia estudado coisa alguma, salvo preceitos constitucionais com um professor particular. Quando um nobre atacou a realeza, dizendo que a rainha era pedante e que, para salvar-se, a monarquia precisava abrir-se, modernizar-se, diminuir a pompa, a rainha-mãe observou que só lhes restava o protocolo. O jovem Philip, marido de Elizabeth, parecia o único a perceber a esquisitice da vida que levavam. Depois de uma viagem, 58 cidades em 57 dias, na qual a rainha teve um espasmo no rosto de tanto sorrir, ele ironizou: durante a noite, colocava o braço para fora da cama, sem perceber, e acenava para as multidões. O horror, o horror! Philip está com 99 anos de idade. Ainda acena.
A vingança de Philip foi conseguir que a rainha fizesse o secretário particular tirar o bigode, símbolo do poder dos cortesãos. Os bigodudos zelavam pela tradição no palácio. Já a princesa Margaret modernizava a vida por falta de algo mais tentador para fazer. Philip passa por várias fases: esbalda-se com amantes, entendia-se, adapta-se, sem jamais deixar de olhar para a situação como se fosse um antropólogo espantado com a singularidade daquela cultura. “The Crown” tem esse valor antropológico. Parece tratar do efeito que faz sobre as pessoas uma instituição quase fictícia. Consta que a monarquia dá lucro. Um racionalista empedernido pergunta: qual o seu sentido? Se colocasse um totem no lugar da rainha para a comunicação com o primeiro-ministro, o que mudaria. Ou, quem sabe, uma árvore.
O mundo repousa sobre uma bolha de sabão. Se tocar ou furar, tudo desaba. Conta-se, de resto, mas se conta tanta coisa quando se tem tempo, imaginação e uma pandemia interminável, que um nativo desse povo que consulta as árvores antes de qualquer decisão viu a série da Netflix. Fascinado diante das conversas do primeiro-ministro com a rainha, nas quais toda opinião é uma quebra de atribuição e de protocolo, ele teria exclamado com um sorriso de pura ironia:
– Maravilhosamente irracional. As árvores têm mais opinião.