Tipologia dos moradores de Porto Alegre
Há alguns anos, fiz uma tipologia do portoalegrense. Continua válida. São três tipos: os “de dentro”, os “de fora” e os “de cima do muro”. Os “de dentro”, nascidos em Porto Alegre, praticam um amor comedido e sem grandes arrancos ou declarações. Os “de fora”, vindos, principalmente, do interior, são vítimas da lógica da paixão, dividindo-se entre o amor doentio e o ódio quase nunca justificado. Os “de cima do muro” são muito chatos e tentam encontrar equilíbrio onde só tem sentido a divisão e a oposição binária. Porto Alegre é como a dança da chula: um duro equilíbrio de pernas antagônicas e complementares.
De tanto brigarmos contra os “hermanos” pelas nossas fronteiras, adquirimos o hábito da relação antropológica fundamental dentro/fora. Depois que as culturas do Prata deixaram de ser importantes para nós e que viramos às costas ao Pampa, elegemos o Brasil como o novo pólo do “fora”. Passamos nosso tempo medindo nossas forças com os de “fora”. Oscilamos entre o megalomania e o complexo de inferioridade. Ora somos muito superiores a todos os de “fora”, ora vibramos por ser reconhecidos pelos de “fora”, ora uivamos de raiva por causa do desprezo dos de “fora”. Porto Alegre é a capital de um gauchismo meio ressentido, embora com alguma razão. Nossa capacidade de atualizar a oposição dentro/fora é tão grande que, aos poucos, geramos um novo fosso: Metade Sul/Metade Norte. No passado, a Metade Sul era o Rio Grande. Hoje, essa mesma Metade Sul já se sente excluída, de fora, alijada pela Metade Norte. Trata-se de um estranho fenômeno de um conjunto que ficou só com uma metade. O Rio Grande é como uma espécie rara de mula sem cabeça: a Metade Norte (corpo) chupa o imaginário da Metade Sul (cabeça). Uma produz bens materiais; a outra empresta seus bens simbólicos. Porto Alegre comporta-se como a donzela a ser conquistada. Os farrapos cercaram-na até cansar, depois de uma breve conquista, e não conseguiram nada. Os de “fora”, vindos do Interior, dizem que os de “dentro” nunca fizeram nada de especial pela cidade. Alguns desses “estrangeiros” chegam a questionar se existe de fato o portoalegrense. Os “de cima do muro” acham isso tudo sem importância e tentam ficar à margem dessa polêmica sem fim, o que provoca sérias desconfianças em relação ao caráter desses incapazes de ser opor francamente uns aos outros.
Porto Alegre centraliza um traço gaúcho essencial: aqui, pode-se, em certos casos, até se trocar de mulher ou de homem sem dar explicação. Mas nunca de partido ou de clube de futebol. Aí já é falta de caráter explícita, obscena, pornográfica. O resto é questão pessoal. Porto Alegre é uma cidade unida por uma só paixão: a da oposição. Polarização entre dois termos irreconciliáveis, porém incapazes de viver um sem o outro. O portoalegrense, altruísta e hospitaleiro, alimenta-se de rivalidade. Era assim, ao menos, até que surgiram Germano Rigotto e José Fogaça com a política de paz, amor e discrição. Yeda Crusius reacendeu a alma portoalegrense. Assim, 2010 promete.
Na mitologia sobre o Rio Grande do Sul, alimentada pelo positivismo, costuma-se encontrar a idéia de que por aqui não vicejam as contradições de outras regiões do Brasil. Paris nunca perdeu ocasião de emplacar seus heróis nas suas ruas e avenidas, mas soube conservar o pitoresco e a imaginação popular em nomes que ainda fazem sonhar: rue du Pas-de-la-Mule; rue du Pot-de-Fer; rue de la Serpente, rue de l’Avenir (rua do Futuro), etc. Porto Alegre já teve a sua Rua do Porvir, transformada em Intendente Alfredo Azevedo. Estava no fim do bonde da Glória. Tomava-se o bonde da Glória para desembarcar no Porvir, na esquina da Avenida Cascata. Acabou a cascatinha. Hoje, o cidadão salta do ônibus e pisoteia um nome insondável e para sempre esquecido: Intendente Azevedo. A glória entrou em decadência. A modernidade usa farda ou terno e gravata.