Tortura e abuso sexual na Trilogia de Palomas
Sou um militante da literatura.
Quero mostrar de que tratam meus livros.
A Trilogia de Palomas, a dez reais o exemplar na barraca da Sulina, na Feira de Porto Alegre, trata de tortura, ditadura e abuso sexual de menores no pampa gaúcho. Vai um fragmento para dar uma ideia:
"Nas noites frias dos longos invernos, contavam histórias junto ao fogo de chão.
Andavam sempre por perto e gostavam de brincar com a criançada.
Excitavam-se com os meninos pegos no colo e enrubesciam.
Vico, distraído, estimulava-os.
Aproveitavam-se dele, o magricela bobo, o sobrinho do açougueiro surdo.
O Comandante percebia os jogos "imorais" e vigiava os rapazes.
Adolescentes desejosos de iniciar-se sexualmente, socorriam-se com os animais e com a sedução dos pequenos.
Bicca admirou-os por procurarem o prazer.
Queriam mudar algo, escapar ao tédio e à dor.
Sem mecanismos de transformação efetivos, sucumbiram à economia infinitesimal da continuidade.
Bicca odiou-os.
Na Vila ninguém ouvira falar em revolução e a política restringia-se à troca de votos por vis benefícios materiais.
O Comandante apoiou o golpe militar nos anos sessenta e integrou as tropas que marchariam contra os tupamaros no Uruguai.
Quando o rádio noticiava sobre ditaduras, escondia-se para escutar. Sobreveio o silêncio.
O povoado nasceu pós-utópico. Prenhe de escuridão.
Sentado na sala, revólver sobre a escrivaninha, o Comandante traçava o futuro dos rapazes do vilarejo e mostrava-se ingênuo: "Este guri, o Bicca, poderá vir a não ser boa coisa. Quem sabe bandido ou revolucionário."
Acalmava-se ao constatar que Palomas estava fora do mundo da informação e do movimento. Impossível obter consciência crítica. Confuso, o militar seguia a esconder-se da chuva, a recolher e a maltratar presos, a combater ervas daninhas e a temer os inimigos. Perto e longe da luz".