Juremir Machado da Silva

Três anos de Caderno de Sábado

 Os mais pessimistas diziam que o tempo dos suplementos culturais havia passado.

Os nostálgicos entoavam o cântico de sempre: só o passado é bom.

Os modernos repetiam o mantra tecnológico: tudo agora é na internet.

Os apocalípticos trovejavam: não há mais cultura. A arte acabou.

Os preguiçosos garantiam: ninguém lê mais de dois parágrafos. Os falsos realistas pontificavam: é muito difícil atualmente conseguir quem escreva para cadernos culturais. Tudo bobagem. Há três anos, sob a batuta de nosso diretor de redação Telmo Flor, o Correio do Povo relançou o Caderno de Sábado. Sou o coordenador editorial. Luiz Gonzaga Lopes é o editor. Marcos Santuário é o nosso terceiro homem. Assume a edição quando Gonzaga descansa ou viaja. O quarto elemento é o diagramador. O CS consegue ser muito bonito, ter bastante texto e sempre valorizar o conteúdo.

Nessa bela aventura, já são 156 edições, os colaboradores são decisivos e grandes parceiros.

Temos gaúchos, paulistas, cariocas, baianos, franceses, italianos, americanos e por aí vai.

Nunca foi tão fácil contatar gente, pedir textos, ampliar o leque e produzir ideias. O CS abraça polêmicas, publica ensaios, contos, crônicas, resenhas, poesia e artigos. Grandes escritores e intelectuais mundiais que passaram por Porto Alegre nos últimos três anos foram sabatinados por nós. O Caderno de Sábado, em sua nova versão, mais ágil e mais enxuta, não tem espaço fixos. Reserva as suas páginas para a diversidade de temas e de autores. Grandes nomes locais como Luiz Antônio de Assis Brasil, Donaldo Schuler, Lea Masina, Armindo Trevisan, Alcy Cheuiche, Kathrin Rosenfield, Sergius Gonzaga e tantos outros figuram com frequência em nossas páginas plurais e densas.

Jovens escritores como Luiz Maurício Azevedo mostram que o talento se renova. Nomes nacionais como Deonísio da Silva, internacionais como Michel Maffesoli, nunca recusam um convite. Começamos graças ao apoio do governo do Estado do Rio Grande do Sul. Contamos ao longo desta trajetória com o determinante patrocínio da Federação das Unimed do Rio Grande do Sul, cujo presidente, o escritor Nilson May, e o presidente do Instituto Unimed, Alcides Stumpf, amam literatura e participam do nosso jogo como colegas, amigos e colaboradores. Quantas entrevistas maravilhosas publicamos neste anos! Quanto contos! Quanta polêmica! O texto inédito de Michel Houellebecq atacando os monstros sagrados da literatura francesa foi um momento maior. Temos falado de literatura, cinema, artes plásticas, música, filosofia, história, teatro, psicanálise, etc.

Nosso lema é simples: o leitor é inteligente. Não se deve servir-lhe sopa rala. Pode enfrentar, em alguns casos, vocabulário mais difícil, teses, teorias, ideias, valores, debates. Gonzaga e eu nos entendemos por música. Amanhã, forneceremos uma edição com um francês, um professor da Universidade de Columbia (EUA), um intelectual brasileiro da UFRJ e um gaúcho. É o nosso cosmopolitismo. Somos locais e universais. Não nos constrangemos sequer de gostar do que fazemos. Num tempo mais difícil, com outros tipos de concorrência, achamos o nosso lugar. A continuidade não seria possível sem o aval generoso de nosso diretor Cleber Nascimento.

O Caderno de Sábado é um ave rara no céu do jornalismo da pós-verdade.