Três começos de livros
Começar é sempre a parte mais desafiadora de um texto. Aqui vão os começos dos três livros cuja sessão de autógrafos da promoção Biblioteca do Correio do Povo acontece hoje, a partir das 18 horas, na Casa RecSul (Praça Maurício Cardoso, 7, Moinhos de Vento).
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Solo, 2008
“Durante muito tempo eu me deitei cedo. Para ver televisão confortavelmente. Isso não me atrapalhava a vida em nada e eu buscava o tempo perdido lendo Marcel Proust, Raymond Chandler e as tirinhas do Garfield. Quase sempre na ordem inversa. Nos últimos meses, contudo, alguma coisa mudou. Alice caiu fora. Agora, passo os meus dias entre o sofá e a cama sempre com a tevê ligada. Troquei até a atitude musical contundente de Franz Ferdinand por Roberto Carlos e Nélson Gonçalves. Não se trata de uma desistência ou de uma capitulação estética. Apenas de um retiro. Um recuo estratégico. Tenho ainda muito o que ver na vida: a programação da TV é interminável e variada.”
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Aprender a (vi)ver, 2006
“Este livro é como uma simples olhada: focaliza o que está bem diante de nós. Um primeiro olhar – enternecido, curioso, espirituoso, às vezes, bem-humorado, talvez, questionador – sobre o mundo cotidiano. Uma piscada de olhos para o que atrai, chama atenção, angustia, fascina, surpreende, semeia dúvidas ou simplesmente não encontra respostas. Não se trata de um enquadramento do tipo “vida: manual de utilização” ou de uma radiografia, mas de alguns pontos de vista ou de algumas vistas de um ponto.
Assumir uma certa ingenuidade, inevitável, de resto, permite voltar a algumas questões clássicas e refletir sobre outras mais recentes e não menos inquietantes: quem somos? Que podemos fazer? Que podemos esperar? Que mundo sonhar? Como podemos chegar ao que desejamos? Qual a nossa parte de responsabilidade no que somos e no que deixamos de ser? Somos produtores ou produtos do universo em que vivemos? Existe um papel de homem na atualidade? Há uma nova mulher? Entramos numa era sem valor nem moral ou numa nova idéia de ética?”
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Getúlio, 2004
“Agosto, mês de cachorro louco, pensou Getúlio Vargas, desviando os olhos do rosto angustiado do ainda jovem ministro Tancredo Neves, sentado à sua esquerda. Mês do delírio total do Corvo do Lavradio, do “mar de lama” que parecia inundar o Palácio do Catete e de vento norte na campanha — a “savana verde” gaúcha que abandonou para mudar o Brasil e da qual, no fundo, nunca saiu. O presidente revisou mentalmente a carta que releu antes de entrar com seus ministros no Salão dos Banquetes para a reunião de crise e suspirou. Agosto, mês de cavalo magro entregar a carcaça nos campos de São Borja, cobertos de geada ao amanhecer. Agosto, permitiu–se o lugar–comum tão ao gosto de seu pai, mês de desgosto. O velho general Manuel do Nascimento Vargas, veterano da Guerra do Paraguai e dos combates no seu bravo Rio Grande, que só morreu à beira dos cem anos de idade, quebrava a aba do chapéu e previa, numa mescla de sabedoria e de resignação: “Esse não passa de agosto”.
Em 3 de outubro de 1930, quando tudo, de fato, começou, com a deflagração da revolução, liderada por ele, que mudou o Brasil, Getúlio tinha passado um dia calmo, despachado com o seu secretariado do governo do Rio Grande do Sul, jogado pingue-pongue e iniciado um diário. “Deve ser para hoje às 5 horas da tarde. Que nos reservará o futuro incerto neste lance aventuroso?” Havia despistado o secretário da Fazenda, que acumulava interinamente a pasta do Interior, dizendo-lhe que o Rio Grande “acompanharia um movimento de ordem geral”. Despistar, essa era a sua grande arte. Essa seria a palavra que os inimigos mais brandiriam contra ele ao longo dos anos. Naquela tarde da grande virada, tudo desfilava na sua mente com a clareza das grandes dúvidas e a certeza dos enormes riscos: “Quatro e meia. Aproxima-se a hora. Examino-me e sinto-me com o espírito tranqüilo de quem joga um lance decisivo porque não encontrou outra saída digna para o seu Estado. A minha sorte não interessa e sim a responsabilidade de um ato que decide do destino da coletividade”. Tudo que os seus adversários explorariam já se encontrava ali: o jogador, o articulador, a raposa, o enxadrista.”