Tradição e tradicionalismo
Um leitor me garante, sem radicalismo, assegura, que é essencial um povo defender com unhas e dentes as suas tradições. Sempre ouço isso. Desde pequeno. É um mantra. Um clichê. Uma muleta. Uma frase feita. Uma ideologia.
Pode ser.
Mas também é essencial fazer perguntas de criança.
Perguntas de criança raramente são infantis.
Aqui vão algumas. Completamente inocentes. A reflexão sobre temas graves me torna cândido. Fico angelical. Um anjo vermelho. Colorado. Viram? Nada de comunista. Nem neoliberal. Se duvidar, começo a voar.
Por que mesmo é importante defender tradições?
A resposta costuma ser: é a nossa identidade.
E quando as tradições caducam?
A Farra do Boi é defensável?
As touradas são defensáveis?
A burka é defensável?
Fiquemos com as tradições inofensivas.
Os tradicionalistas gaúchos vivem de nossas glórias. Comemoram, lembram, imitam nossos antepassados.
E se a defesa da tradição fosse apenas um componente de uma lógica distintiva? Parece muito pomposo?
É simples: e se a defesa da tradição fosse apenas uma maneira de marcarmos uma diferença em relação aos outros? Um modo de sermos particulares? Uma diferença da qual possamos nos orgulhar e, obviamente, nos distinguir?
Nesse caso, a tradição não seria apenas um fator de separação do resto pela reunião num mesmo grupo?
Qual seria a diferença gaúcha?
O passado.
Só tem um probleminha: o passado é sempre uma reconstrução do presente. No fundo, como dizem alguns, só existe história do presente. Cada época reescreve o passado. Claro que alguns limites se impõem.
O resto é imaginário.
O forte dos gaúchos seria o passado.
Não seria isso uma confissão de fracasso do presente? Algo assim: dado que o presente não é um diferencial suficiente, orgulhemo-nos do nosso passado.
Não seria isso um marketing da diferença? Um produto à venda? Ainda mais na época da indústria do turismo? A tradição não acaba sendo um produto exótico de exportação? Ou uma terapia ocupacional em sociedades de tempo livre? Qual o mal disso? Talvez nenhum. Pode ser melhor do que a tradição de ver o Faustão. Sem dúvida.
Mas...
Quem tem muito presente precisa tanto do passado?
Quem tem muito futuro precisa de muito passado?
O respeito à tradição pode ser fruto do orgulho por grandes realizações ou agradecimento aos nossos construtores, mas não será cada vez mais a expressão dessa vontade de ter alguma diferença para mostrar?
O racionalismo pode ser visto como um efeito perverso, uma doença da racionalidade. Seria o tradicionalismo um efeito perverso da tradição?
Criança tem cada um!