Juremir Machado da Silva

Triunfo da mediocridade

Triunfo da mediocridade

Serei redundante. Aqui vai o texto, que está aberto na internet neste mesmo site, da minha coluna do Correio do Povo de hoje. Não posso deixar meus leitores privados dessa ode à liberdade absoluta de gosto. Aproveitem!


Sempre defendo o direito à idiotice. Eu sou idiota. É uma questão de interesse pessoal. Sei que nesse ponto estou longe de ser imparcial. Advogo em causa própria. A sociedade democrática tem como principal característica a diversidade. Ninguém pode condenar os outros pelo amor à imbecilidade. Alguns leitores me entendem mal. Acham que eu condeno o gosto por programas idiotas. Longe de mim. Eu gosto de coisas absolutamente idiotas. Passo em torno de oito horas por semana vendo 22 homens correrem atrás de uma bola. Vibro com isso. E ainda ouço a fala dos caras depois do jogo. Já ouvi entrevista do Walter do Inter. É inesquecível. Nada bate com nada. O efeito é genial. Walter é um Picasso da palavra. Tem fala cubista.
Adoro o leitor utilitário. É o sujeito que levanta às seis da manhã e espera a gente na porta do jornal para fazer uma observação assim: “Fale mais sobre os impostos que aumentam o preço dos remédios. Esqueça o BBB”. Fico comovido. Que amor pela humanidade! Examino a pessoa. Tento saber se está gravemente doente. Faço tudo para saber que motivações bizarras a levam tão cedo ao centro da cidade. Em geral, concluo que o indivíduo está bem. Sofre, no máximo, de solidão. Tem alguma carência. Quer atenção. Prometo ser útil. Critico o governo. Ataco todos os governos. Cito dados de países europeus onde os remédios estão isentos de impostos. Sustento que a imprensa deve ser, antes de tudo, um serviço público.
Em seguida, atravesso a Praça da Alfândega pensando no Walter e nos reality-shows. Eu sou uma anta. Tenho cruza com paca. Sou contraditório. Defendo, ao mesmo tempo, o direito à idiotice e o direito de zombar da idiotice. Eu zombo de mim. Sou o meu idiota predileto. Faço besteira atrás de besteira. Já parei para me olhar no espelho. Comecei a rir. Eu estava com uma cara de participante de BBB. Tinha aquele ar estúpido de quem acredita na importância da fama sem conteúdo. Eu sou idiota e invejoso. Ataquei o tal Dourado por duas razões: não ganhei R$ 1.5 milhão e não me tornei famoso como ele. A vida é simples: por trás de todo crítico há um invejoso. Uma advogada me aconselhou a fazer o meu mapa astral. Vou providenciar. Defendo o direito à superstição. Acho natural que alguém seja advogado e acredite em mapa astral. Afinal, tem administrador atuando na medicina ortomolecular. Tudo é possível. Já.
Contem comigo para defender o inalienável direito de cada ser humano à idiotice. Os animais também devem ser contemplados. Não quero ser acusado de especismo. Heterofobia e especismo estão entre os mais graves preconceitos da atualidade. Eu já cometi crime (?) ou delito (?) de especismo. Desfechei violentos ataques contra a espécie que mais cresce no mundo: os vidiotas. Tive atenuante: fazer parte da espécie atacada. Não vivo sem uma telinha. Preciso da minha dose cotidiana de besteirol. Vejo novela. Olho VT de jogo de futebol. Fui criado vendo Sessão da Tarde. Estou marcado para sempre.