Juremir Machado da Silva

Tudo passa. Menos a verdade

Talvez ninguém se interesse por este tema que me encanta: as lições da história. Só de escrever essa expressão eu já me comovo. Fico tentado a reler Jules Michelet, Edward Gibbon e Thomas Carlyle. Já leu, caro leitor, Michelet neste ano? Já leu Gibbon neste mês? Já leu Carlyle nesta semana? Há quem diga que a história serve para que não cometamos novamente os mesmos erros. O escritor Oscar Wilde dizia, porém, que a experiência é apenas a soma dos nossos erros. Wilde era frasista. Frasistas não são confiáveis. Eu faço as minhas frases. Não confio em mim. Por uma boa frase, sou capaz de (quase) tudo. Por exemplo, colocar a pátria em risco.

Carlyle disse: “Cada dia, honro os fatos mais e mais, e teorias menos e menos. Os fatos, parece-me, são esplêndidos”. Eu também acho. A minha única dificuldade é separá-los das suas interpretações. Michelet anotou sobre a fome: “Ninguém sentia tudo isso mais vivamente que as mulheres. Os sofrimentos, tornando-se extremos, tinham atingido cruelmente a família e o lar (...) quando o rei foi a Paris, muitas mulheres estavam armadas. As mulheres estiveram na vanguarda de nossa revolução”.

Gibbon sintetizou sobre Roma: “A prosperidade fez com que amadurecesse o princípio da decadência; as causas de destruição se multiplicavam com a extensão das conquistas, e, tão logo o tempo ou os acidentes removeram os sustentáculos artificiais, a estupenda estrutura desabou sob seu próprio peso”.

É a vez do leitor, que pergunta: “E daí?” Bem, daí que adoro ler textos de grandes historiadores para ficar com os pés sobre a mesa dando tratos à bola. Conclusão: tenho tempo de sobra. Quando não leio historiadores, releio intelectuais, que é como se chama quem se ocupa de muitos campos do saber. Umberto Eco foi intelectual.

Em “Viagem na irrealidade cotidiana”, texto de 1967, ele cravou: “Hoje, um país pertence a quem controla os meios de comunicação”. Pobre, Eco. Nunca poderia imaginar que a sua profecia seria desmentida tão rapidamente. Hoje, um país pertence a quem controla as redes sociais. Pois é, rebate o espírito de Eco: os meios de comunicação. Eis a beleza do fato. E da sua interpretação.

Cada um de nós virou dono de meio de comunicação.

Carrego meu império de mídia no bolso direito. Com meus veículos, registro a miséria na cidade, percebo a luta das mulheres por toda parte, observo grandezas e decadências da república, emito opiniões por sobre fatos e teorizo. Sim, apesar de tudo, teorizo. Pertenço a um tempo deslumbrado pelo conceito. O que diz a teoria sobre os fatos que nos impressionam no momento? Que devemos refletir. A teoria é cautelosa. Cansou de arriscar e de errar. Se a teoria anda devagar, os fatos entraram na fase da aceleração radical.

Umberto Eco errou ou acertou? Cada um interprete como quiser ou puder. Fato é que sua teoria faz refletir com cautela. Tudo passa. O meio de ontem pode não ser o de hoje e muito menos o de amanhã. Na era em que todos somos proprietários de mídia não se tolera falta de opinião. É fato.

Entramos na era radical da liberação da mentira e da proibição da verdade.