Um caso de amor com Baudelaire
Parei para reler Baudelaire.
Na banheira.
Reli também o que escrevi sobre minha relação com Baudelaire.
Assino embaixo.
Dizer “eu” é quase sempre um deslize.
Brinco muito com um “eu” que de mim tem muito pouco, a não ser na universalização da minha banalidade.
Como todos os seres comuns que atravessam as manhãs deslumbrados com o alarido das ruas eu queria submeter-me a um desafio que me marcasse com fogo. Melhor, com poesia.
Decidi “reescandalizar” Baudelaire, talvez o poeta mais traduzido no Brasil.
Agora que minha tradução de 84 poemas de “As flores do mal” (Sulina) está há anos nas livrarias, posso sonhar que fiz algo. Não digo que realizei uma façanha. Confesso que me dei sentido.
Quando vi “Flores do mal, o amor segundo Charles Baudelaire” pronto, fiquei emocionado.
Nunca tinha sentido isso antes diante de um livro. Tive vontade de chorar sobre o exemplar belíssimo da edição bilíngue, cuja capa é uma obra-prima do gênero. Na verdade, são 84 poemas sobre amor e morte. Dá no mesmo.
Traduzi os 166 poemas da edição da Pléiade. Joguei fora quase a metade. Eliminei quase tudo do satanismo de Baudelaire que sempre encantou tantos velhos adolescentes. Resgatei o poeta do cotidiano, da sensualidade, das passantes, das serpentes que dançam, do sexo, das drogas, da arqueologia do vivido e da paixão.
Vivi quase dois anos possuído pelo delírio de uma poesia visceral e sem tempo. Amo a literatura. Sinto uma alegria sem medida diante da criação de um gênio. Algo que me faz perder a sobriedade e o pudor. Baudelaire me deslumbra.
A sua imensa poesia iluminou a minha pequenez como um turbilhão. Andei perdido em palavras, sons e ritmos como um fantasma em dias e noites repletos de magia. Baudelaire foi processado, maltratado e perseguido pelo escândalo que causou com as suas flores do mal. O tempo domesticou as ótimas traduções existentes
Leiam Baudelaire e vocês nunca mais serão os mesmos. Uma flor do mal, desculpem o clichê, é poesia na veia. Causa dependência incurável. Poesia é coisa para se ler no ônibus, no banheiro, antes do suicídio, na hora do casamento, dois minutos antes do divórcio, na porta do hospital. Posso brincar com meu “eu” irônico. Consegui resolver um dos mais sérios problemas da sociedade de massa e dos tempos da indústria cultural. Mereço estátua em shopping center pela minha realização. Inventei o presente ideal a ser dado pelos apaixonados em todas as festas, a começar pelo Natal.
Mas também a melhor poesia para ser ler na praia e no carnaval.
Poesia do vitalismo.