Um dia em São Borja
Estive em São Borja, aonde eu não ida desde 2003, quando lancei meu romance “Fronteiras”.
Na primeira vez que fui a São Borja, cobri Inter e São Borja. Estou velho, alquebrado, cheio de lembranças.
Desta vez, falei duas vezes sobre Getúlio, na Câmara de Vereadores, convidado pelo pessoal do DAC e do Museu Getúlio Vargas, o Deco, a Verônica, a Vaine.
Até o prefeito municipal foi à abertura do evento.
Estou ficando muito importante.
Gostei do público: atento e interessado.
Adoro essas viagens rápidas que permitem conhecer pessoas interessantes e personagens de uma cidade.
Por exemplo, o dr. Salvador, que já tem 60 anos de rádio nas costas, cobriu a campanha de Getúlio em 20 Estados e segurou microfone no enterro do presidente.
Um arquivo vivo.
E o dr. Amândio, advogado calejado, que me presenteou com “A revolução dos covardes”, de David Nasser, que eu tinha lido num empréstimo de biblioteca.
Deu-me também uma cópia de um artigo de um dos meus melhores amigos, já falecido, o inesquecível Décio Freitas. No texto, Décio fala de uma entrevista que fizera com Flores da Cunha. Depois das perguntas formais, jogando conversa fora, Décio teria perguntado sobre o Cabarés dos Caçadores, muito frequentado por Flores.
– O Getúlio também freqüentava os Caçadores? – pergunta o provocador Décio.
– Bah! De vez em quando. Jogava uma fichinha e ia embora cedo – responde Flores.
– E se entretinha com as mulheres?
– Não! Acho que até puto era!
Depois das palestras, andei pela cidade guiado pelo Tomaz, um jovem advogado que trabalha com Viriato e conhece bastante da história dos Vargas.
Tem alma de historiador.
Acabou me levando para ver o Museu da Estância, idealizado por Apparício Silva Rillo, onde conheci o Licurgo e reencontrei o Marco Antônio, genro do Apparício e, segundo ele mesmo, grande jogador de futebol, apesar dos 50 anos e de uma honrosa barriga. O filho dele estava junto e confirmou ter filmado o pai dar uma caneta do Pinga, não faz muito tempo, numa preliminar no Beira-Rio.
Poderia ter ido para o Bola Cheia.
Esse pessoal mantém viva a memória do grupo Os Angueras, fazendo encontros semanais de música e charla.
Um mundo, um imaginário, fronteira.
Conheci também o João, cujo sobrenome ou apelido não guardei. Ele é pianista. Depois de passar anos cuidando da mãe doente, recebeu uma pequena herança e pretende ir para Buenos Aires estudar bandônion.
Bandonion, bandônion ou bandoneón?
Para mim, é bandonion!
Esse sempre foi o meu maior sonho.
Largar tudo, trabalho, mulher e filhos, para ir estudar bandonion num subúrbio de Buenos Aires, onde leria Borges todas as manhãs, torceria pelo Boca à noite e sentiria saudades de Palomas todas as tardes.
Não posso fazer isso.
Não tenho filhos.
Só mulher.
E a Cláudia eu não largo.
Nem o Inter.
Nem Palomas.
Viverei sem realizar esse sonho.
De qualquer modo, seria impossível. Sou incapaz de tocar um instrumento. Incapaz de dançar tango.
Oh, que frustração!
O João ficará na minha memória: gordo, excelente contador de histórias, bonachão, simpático, vagando por São Borja, cumprimentando a todos, em busca de um piano, tocando na casa dos pais de Jango, hoje memorial João Goulart, ao final da tarde ensolarada, levando-me para conhecer o Silvio, filho de um ex-prefeito trabalhista importante, que pensa, quem sabe – enquanto me mostra fotos do pai com Brizola, com outros mitos do trabalhismo, no enterro de Jango – ser vereador, mas não quer votos de amizade, só ideológicos. Teria o meu.
Depois, com o Tomaz, fui comer traíra e tomar vinho argentino à beira do rio Uruguai, no porto remodelado, onde encontramos o Licurgo e a Silvana, mulher dele, que trabalha na Secretaria do Turismo, e o neto do Rillo. Falamos de muita coisa. Até polemizamos um pouco.
A Silvana contou que se pode fazer uma peregrinação de São Borja a Santo Ângelo: 325 km a pé, com um cajado. Fiquei muito interessado. Já me via como Paulo Coelho.
Prometi voltar para a caminhada.
Cheguei a perguntar se é possível ir a cavalo.
A resposta foi negativa.
No bar, Tomás quis me apresentar a Rita, que estava com o marido. Mundo pequeno. A Rita foi musa da esquerda estudantil e dos seus colegas de História na PUC.
Na rua, recebi um bilhete com uma velha fofoca: Lutero não seria filho de Getúlio, mas de Osvaldo Aranha.
Era alto como Osvaldo.
Ah, como o povo fala!
Conto essa história pelo absurdo que parece conter.
Será coisa de antigetulista visceral?
Perdi o ônibus. Cheguei cinco minutos atrasado.
Um taxista tentou me convencer a correr atrás do ônibus até São Luis, sem qualquer garantia de alcançá-lo.
Gostei da proposta. Seria uma aventura maluca.
Fiquei com duas possibilidades: comprar passagem para o ônibus seguinte, por Santa Maria, perdendo um bilhete, ou fugir para Buenos Aires, onde tentaria, enfim, aprender a tocar bandonion.
Disseram-me que se pode tomar uísque no leito para a capital argentina rodando numa estrada que é um tapete.
Acho que se parte de Santo Tomé.
Eu teria de invadir a cidade argentina, onde tem um cassino, um pub e gasolina barata.
A invasão não deu certo em 1993.
Não tomo uísque. Não jogo. Não dirijo.
A Cláudia me mataria.
Eu morreria de saudades dela.
Comprei outra passagem.
Estou ouvindo Astor Piazzolla em casa, a quem um dia entrevistei à beira de uma piscina em Porto Alegre.
Ele me perguntou: “Gosta de bandonion?”
Não tive coragem de contar-lhe o meu sonho.
Adiós, nonino!