Outro dia, participei de uma mesa na qual autores, inclusive eu, lamentavam a indiferença da mídia em relação aos seus livros. Falar nisso é bom. Ouvir, insuportável. Resume-se a isto: a humanidade tem a obrigação de nos valorizar, pois somos escritores e o texto escrito é sagrado como entretenimento e saber. Acontece que pode ser mais simples: cada autor precisa capturar o leitor. A maioria das vezes isso não acontece. Por quê? O leitor não gostou, não se interessou, não quis, não colou, não funcionou, o agendamento não ocorreu. Falhou. Dantec encontrou leitores por quase toda parte. No Brasil, se tivesse saído pela Cia das Letras, seria cult.
O leitor brasileiro fashion é meio maria-vai-com-as-outras. Gosta de grife.
Comecei a admirar quem fura o bloqueio. Entre eles, Michel Houellebecq e Paulo Coelho. Os dois merecem o Nobel. Dantec é um caso singular. Vendeu muito na Europa, cansou e deu o fora. Foi viver e morrer no Canadá. Faleceu em junho deste ano. Nos seus livros, antecipou o fenômeno do islamismo radical. O britânico Ian McEwan veio a Porto Alegre. É autor da Cia das Letras. Convencional. A turma corre para comprar. Dantec e Houellebecq são marginais introduzidos no Brasil por um marginal, eu, numa editora marginal tocada por um maravilhoso marginal, Luís Gomes. Fazemos guerra de guerrilha. O leitor de livros costuma ser um consumidor influenciável como qualquer outro. Vai muito pela marca, pela moda e pelo sucesso.
Guy Debord, na sua famosa tese 10, afirmou que o espetáculo “não diz nada além de o que aparece é bom, o que é bom aparece”. Cada vez que um escritor reclama da sua invisibilidade, o jornalista de cultura sorri e pensa “o que é bom aparece”. O problema é que muitas vezes ele muda de lado no balcão. Por que não apareço? Porque não sou bom. Por que fulano aparece? Porque é bom. Resolvido. Por que Maurice Dantec apareceu tanto na Europa? Por ser bom para a Europa? Por que não aparece no Brasil? Por ser não ser bom? Se tivesse sido publicado pela Cia das Letras seria bom? A resposta é óbvia: o jornalismo cultural de Rio e São Paulo não diz nada além de o que sai na Cia das Letras é bom, o que é bom sai na Cia das Letras. Por consequência, na Veja, na Folha de S. Paulo, em O Globo e no Estadão. Muito simples. Tudo que é simples demais acaba por ser uma simplificação grosseira. Até isto.
Fora a choradeira, fica a dica: Raízes do Mal na Feira do Livro. Não posso me queixar. Uma vez, faz uns 20 anos, um livro meu foi resenhado. Fui chamado de autor gaúcho promissor. Desde então trabalho arduamente para negar essa profecia. Quero ser maldito. Trata-se de uma profissão de fé para quem perdeu a crença na mídia.