Juremir Machado da Silva

Um maldito deve sentir orgulho dos insultos

Liberdade de espírito





Leitores me pedem mais detalhes sobre minhas classificações literárias. Não posso negar-lhes esse alimento intelectual. A literatura lida com duas grandes categorias: autores e escritores. Entre os escritores, há os malditos e os benditos. Todo maldito hipermoderno é “midíocre”. Eu sou hipermoderno, maldito e “midíocre”. Há controvérsia. Talvez eu não seja escritor.

Apenas autor.

Como saber a diferença. É simples. Se alguém pergunta:

– Onde encontro o seu livro?

Qualquer que seja a resposta, trata-se de um autor. Livros de escritores são procurados e encontrados nas livrarias. Ninguém faz a um escritor essa pergunta. Como algumas vezes meus livros são procurados e encontrados nas livrarias, alguns já me consideram escritor. Nessa hipótese, muito duvidosa, sou hipermoderno, maldito e, obviamente, “midíocre”. Hipermoderno é todo indivíduo que confere o seu twitter inclusive no banheiro. Maldito dispensa definição. É um estado de espírito, uma atmosfera, uma aura, algo que acompanha a pessoa até a morte. A maldição é vitalícia. Volta até em reencarnação.

Um bom maldito “midíocre” come o pão que o diabo amassou e não desiste. O seu momento maior de provação são as sessões de autógrafos. Já contei aqui que tive uma fila com menos seis pessoas. Eram todas para o meu vizinho cujo espaço havia transbordado. Tive também a mais incrível sequência de sessões de autógrafos. Um recorde. Deveria estar no Guinness. Em 2004, consegui a façanha de realizar três sessões seguidas sem dar um só autógrafo. Estive em três cidades, em três livrarias, em três estupendos fracassos. Os três organizadores colocaram espumante no gelo. Nos três casos, não encontramos nem sequer alguém para desovar as garrafas, que já estavam abertas. Ser maldito “midíocre” tem uma vantagem: não se tem muito a perder. Pode-se dizer tudo.    Um maldito “midíocre” não é invisível. Ao contrário, nunca lhe faltam editoras. Agora, se tiver o que se chama em teoria da comunicação de “onipresença”, comentários na totalidade ou na maioria da mídia dominante, não será maldito. Apenas “midíocre”. Malditos não são resenhados. Salvo negativamente. Em doses homeopáticas que é para o cara não ficar se achando importante. Um maldito deve ter metas ambiciosas.

Eu persigo incansavelmente o meu objetivo existencial: ser o pior escritor em atividade. Segundo meus críticos, que não podem ser muito famosos, não preciso fazer mais esforço algum para cumprir a meta. Um maldito deve ser ignorado pelos especialistas do seu campo de atuação. Não pode ganhar prêmios, salvo por distração ou sacanagem de jurados desejosos de abalar-lhe a reputação. Cabe-lhe, no entanto, concorrer, vez ou outra, ou sempre, só para perder e ter a certeza da sua “midiocridade”. A “midiocridade”, como tenho mostrado com riqueza de detalhes, é a etapa superior da mediocridade.

Um maldito deve ter orgulho da sua situação. Quanto mais insultado, melhor. Quanto mais ignorado pelos donos da área, mais realizado. É sua missão encontrar meios para divulgar a sua condição e atrair novos fãs. Sempre.

A tarefa do intelectual maldito é pôr em crise, abalar fundamentos, derrubar estátuas, tirar do pedestal.

E rir de si mesmo.

Especialmente se os outros não conseguem fazê-lo.

Agradeço a todos que me insultaram apaixonadamente nos últimos dias.

Os elogios me aquecem o coração. São feitos por pessoas que desafiam os clichês, enfrentam o marasmo, aceitar correr riscos, buscam novos horizontes, não se contentam com cartilhas, olham nos olhos e distribuem generosidade.

Os insultos incendeiam a mente.

Eu, maldito, midíocre, medíocre, o pior de todos, encontro consolo.

O cara me para na descida do ônibus e diz:

– Não faz assim, você não é imbecil. Você é um cara inteligente.

Duvido.