Juremir Machado da Silva

Um pênalti decisivo

Um pênalti decisivo



Falemos de coisas sérias.
É a hora.
Chega de Ahmadinejad.
Basta de amenidades.
Falemos de futebol.
Última rodada do campeonato.
É a única coisa realmente importante.
Flamengo, Internacional e São Paulo entraram em campo empatados na liderança com 62 pontos. O São Paulo, porém, está perdendo para o Sport Recife, em casa, por 2 a 0, num jogo inacreditável e violento. O Inter, no Beira-Rio, está empatando com o Santo André, sob fortes vaias dos desiludidos colorados. Os atacantes do Inter já perderam três penalidades máximas, duas delas claramente inventadas pelo juiz em tarde lastimável. No Rio de Janeiro, o Flamengo vence o Grêmio por 1 a 0, gol do imperador. Aos 45 minutos dos segundo tempo, o árbitro marca um pênalti inexistente em favor do tricolor gaúcho. Se o Grêmio converter, o Inter será tetracampeão brasileiro. A confusão é total. A polícia entra em campo.
Depois de 15 minutos de confusão, a ordem é restabelecida. Chaga a hora da verdade. O Brasil inteiro espera. Cada jogador gremista olha para o outro. Ninguém quer assumir a responsabilidade. Quem errar, será acusado de ter feito “jogo sujo”. Quem acertar, será visto para sempre pelos torcedores mais fanáticos como um traidor.
Ninguém se escala. O tempo passa. O árbitro chama o capitão do time e pede uma decisão imediata. O capitão vai até o técnico e pede uma ordem clara. O técnico liga para o presidente do clube e lhe passa a bola na bucha.
O impasse continua.
O Flamengo pressiona.
A torcida vaia.
De repente, um jogador avança.
Chama para si a responsabilidade.
O estádio silencia.
O jogador atravessa o campo.
Parece suportar o peso do mundo nos ombros.
O Maracanã parece ainda maior.
Não só o maior estádio do mundo, mas o maior gramado de todos os tempos, o maior campo da galáxia: um latifúndio árido e tristemente verde.
O jogador segue sua caminhada solitária
É o goleiro gremista.
Caminha, no entanto, com firmeza.
O Brasil inteiro se pergunta com o coração na boca: o que ele estará pensando? Por que decidiu bater?
O goleiro atinge a área adversária.
É o goleiro reserva do Grêmio.
Arruma a bola na marca da cal.
Recua dois passos.
O silêncio é aterrador.
Daria para ouvir uma bala perdida até no Morro dos Macacos. Ouve-se um tambor na Mangueira tão próxima.
O goleiro parte.
Corre.
Dá uma paradinha.
E bate...