Juremir Machado da Silva

Um passeio à Fazenda Itu



Com Christopher Goulart, Iara Castiel e sua filha Adriana, fomos visitar a Fazenda do Itu, em Itaqui, onde Getúlio Vargas viveu boa parte do autoexílio depois da queda de 1945 e antes do retorno triunfal ao poder pelo voto direto.

Alceu Nicola, o atual proprietário, recebeu-nos com muita gentileza.

Ele preserva a casa onde Getúlio morou e a mantém aberta em permanência aos visitantes.

Assumiu o papel de guardião de uma memória encravada nas profundezas da campanha gaúcha.

Quase todo mundo pensa que a Fazenda Itu fica em São Borja.

Ela faz parte do município de Itaqui.

Mas parece mais fácil chegar a ela de Santiago.

Embora fique, de certo modo, é em Maçambará.

Foi um belo passeio.

Só boas companhias.



Christopher é  neto de Jango e certamente o mais empenhado defensor do legado do seu avô.

Se o PDT for esperto, fará dele o verdadeiro herdeiro das qualidades de Jango, o que poderá representar, ao mesmo tempo, renovação e enraizamento no trabalhismo.

Um partido precisa de mitos, de história, de passado e de fundamentos.

A política se alimentar de símbolos.

O trabalhismo é feito de três mitos: Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola.

Não pode ser reduzido a nenhum deles.

Juliana Brizola, que já está com a carreira alavancada, e Christopher Goulart, podem e devem representar esse retorno às origens e esse salto para renovação, pois a Velha Guarda trabalhista, muitos que tiveram ficha no antigo PTB, precisa passar o bastão.

Foi um ano bom para o trabalhismo com o cinquentário da Legalidade.

Só não foi melhor porque Carlos Lupi estragou tudo.

Os próximos anos também serão de recuperação da imagem de Jango.

Em 2014, quando dos 50 anos do golpe militar de 1964, será o momento decisivo para se mostrar, como disse Darci Ribeiro, que Jango caiu não pelos seus erros, mas pelos seus acertos.

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Iara Castiel é uma agitadora de primeira linha.

Psicóloga, ex-professora e advogada, dedica-se a defender empregados contra patrões em causas trabalhistas.

É do PT.

Poderá fazer uma bela carreira política em Santiago.

Será, com certeza, uma excelente prefeita.

Só falta a decisão de se canditar.

Culta e com excelente formação, tem, de certo modo, um ponto em comum com Jango: tem uma estância.

Jango tinha muitas.

Ser estancieiro não precisa ser sinônimo de falta de sensibilidade social.

Embora seja isso que falta para muitos latifundários.

Iara, como Jango, anda na contramão.

Jango foi visto como um traidor da classe: um fazendeiro que queria a reforma agrária.

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A Fazenda do Itu é um convite ao devaneio preservado por Alceu Nicola.



Na frente, diante da pequena varanda onde Getúlio sentava na rede para fumar seu charuto e tomar mate, há um belo arvoredo.

Sombra boa e generosa.

O essencial é a paisagem.

Os campos que se perdem no horizonte.

A gente fica imaginado a solidão de Getúlio e, ao mesmo tempo, sua paz.

Fica pensando nos seus dilemas, nas suas decepções e nos seus projetos.

No final dos anos 1940, o local deveria de acesso bem difícil: deveria ser avião ou cavalo.

Um maravilhoso e melancólico cenário para um exílio, em parte, voluntário.

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As paisagens têm uma força motora.

Estivemos em Jaguari, onde palestramos, Christopher e eu, para professores da rede municipal, num evento organismo pelao secretário da Educação, Milton Bolzan (PT).

Jaguari é uma pequena e linda cidade de colonização italiana.

Tem identidade, personalidade, casas que deixam emanar um sentimento, uma origem com seus pequenos mitos.

A pequena e estreita ponte sobre o rio Jaguari, dentro da cidade, cuja largura mal abriga um carro de cada vez, dá ao lugar um aspecto telúrico, encantado, romanesco, a vida dentro do túnel, o passado e o presente como poesia do cotidiano.

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Se eu fosse me retirar para escrever um novo livro sobre Getúlio, gostaria de fazê-lo à sombra das árvores diante da casa de Getúlio na Fazenda do Itu.

É um imaginário que se descortina. O imaginário dos campos, das coxilhas, da Era Vargas.

O imaginário, para usar a expressão do primeiro biógrafo de Getúlio, Paul Frischaeur, da  "savana verde".

Imaginário de pampa, fronteira e poder.



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Tudo isso num mundo de tecnologias de aproximação.

Tudo se estreita. Espaço e tempo diminuem.

Na ida para Santiago, que já foi do Boqueirão, enquanto o carro engolia os quilômetros, com o verde das árvores e dos pastos, servindo de pano de fundo, Christopher falou por telefone, no viva voz, com a sua avó, Maria Thereza, viúva de Jango, e com Almino Afonso, ministro do avô. Avançávamos para o coração do mundo de Vargas e Jango conversando com protaganistas de um passado que por muito tempo vai nos visitar com suas imagens, histórias, crises, dramas e esperanças,

A História é um romance do passado contado e recontado pelo presente.

Somos todos crianças ao pé do fogo ou esperando histórias antes de dormir.

Chegamos de volta à Porto Alegre na madrugada de domingo.

Dormi e me veio uma cena real como sonho.

Iara, Christopher, Adriana, eu, Nicola e sua companheira na cozinha do Itu conversando como velhos amigos.

À sombra tutelar de Getúlio.