Um pouco de poesia gauchesca
O imaginário fala. A poesia não precisa de intérpretes. Os nomes dos autores podem ser localizados na internet.
“Gosto de fazer um potro
se cortar na minha chilena
pra sentir o sopro do vento
me esparramando a melena
Crinudo que sacode arreio
engancho só na paleta
pois as esporas que eu uso
têm veneno na roseta
tenho um preparo de doma
trançado com perfeição
pra fazer qualquer ventena
saber que é este peão.”
“Aprendi a domar, amanunciando éguas
E para as mulher, vale as mesmas regra
Animal te pára! Sou lá do rincão
Mulher para mim é como redomão
Maneador nas pata, pelego na cara.”
“Bagual que nunca se amansa por mais golpeado que seja.”
“Quando nasce um ginetaço,
Até o céu muda de cor.
É um rincho só nas coxilhas
E no meio das tropilhas,
Dá um verdadeiro pavor.”
“Mas já o índio de a cavalo,
Cruzava lá na cancela...
Se via aquela panela
De gente redemunhando...
Quando o flete disparou
Foi que a corda se cerrou
Atrás da orelha enforcando.
E com mais uns tironaços,
E mais um tino campeiro,
O bagual, como um terneiro,
Foi recebendo a carona,
A cincha juntou-le o basto,
Um pelego cor-de-pasto
E a sobrecincha de lona.
Bocal sovado a capricho,
E rematado em ponteira,
Que toda a indiada campeira
Tem a sua manha no apero,
Cada qual tem seus inventos
E até pelo nó dos tentos,
Não copeia o companheiro.
Quando orelhavam o baio,
E o Amigaço se alçou,
O povo se encomendou,
Fazendo o pelo-sinal...
Mas o Amigaço, mui calmo,
Deu um nó na rédea, a um palmo
Pra cá das cruz do bagual!
E é melhor nem mais contar...
O baio pateou na orelha,
Pulando um monte de telha
Que ali estava pela frente,
E o pardo saiu tenteando,
Chapéu na mão, gineteando,
Aos olhos daquela gente.
Dali um pouquito, riscou
Campo fora se perdendo,
A indiada foi se benzendo,
Rezando a Deus com fervor,
Só bombeando a polvadeira
Daquela louca carreira
Por detrás dum corredor!”
“Dá um nó nas rédeas, parceiro,
Que a cousa fique parelha
E depois me deixa a orelha
E vai montando no más -
Aprende como se faz,
Pra que nada te aconteça,
Cuida do potro a cabeça
e atira o corpo pra trás!
Não te preocupa com cerca,
Que tu não anda sozinho,
Saio junto e amadrinho
Pra que não haja desconto.
Finca-lhe o mango, de pronto,
E as chilenas, mas cuidado
Não olha pra nenhum lado
Pra mode não ficar tonto!
E ao passear tuas chilenas
Das paletas à virilha,
Vendo as gramas da coxilha
Ora bem longe, ora perto,
Tu compreenderás, por certo,
Essa atração sem igual
Que exerce em nós um bagual
Berrando um cmapo aberto!
Quando os corcovos pararem
Deixa correr e golpeia,
Flocha o corpo e ladeia,
Puxando em cada costado
Que o potro que é bem golpeado
Ds queixos, não se retova,
E já na terceira sova,
Quando esbarra, está domado!”
“Encilhei este cavalo
Montei e mandei soltar,
Começou a corcovear
Então eu baixei-lhe o mango,
Juntei o bicho na espora
E saímos campo à fora
Fiz até dançar um tango.
Este potro corcoveava
Chegava a tremer o chão...
Eu agüentando o tirão
Mas confesso que assustado,
Pois nunca vi coisa igual
Parecia, que o bagual
Estava endemoniado.
Mais ou menos quatro horas
Corcoveando sem parar,
Cansou de tanto apanhar,
Parou e ficou quietinho...
Por quase uma meia hora
Cortando a mango e espora
Desde a anca, até o focinho.”
“Pois bem, agora sou eu
Que te convido, gateado,
Tu me tiraste apurado
Com o primeiro “corcovo”,
Com esta tunda te provo
Que leva por merecer,
Quero fazer tu perder
Esse teu jeitão de louco
Porque senão, daqui um pouco,
Tu periga me vencer.
Dava gosto ouvir a prosa
Do ginete conversando
E o ventena se apoucando,
Num repasso de chilena,
Se terminou o pavena,
Metido a bicho-papão,
Quando voltou pra o galpão
Não era o mesmo gateado,
Tranqueando devirilhado,
Quase de rédea no chão.
Cavalo, às vezes precisa
Levar algum corretivo
O instinto primitivo
Insiste em libertá-lo,
É por isso que o cavalo,
Desde o primeiro floreio
Precisa levar um costeio,
Fincar-lhe num pau-de-arrasto,
Depois, em baixo do basto
Ele conhece o arreio.
Gosto que o potro conheça
O assobio de macaco,
Por mais que seja velhaco,
Cheio de baldas e manhas,
Acostumado co’as ganhas,
Metido a corcoveador,
Às vezes, manoteador,
Sem perder uma parada,
Cada dia, uma encilhada,
Obedece ao domador.
Primeira sova, segunda,
Depois, cavalo de freio,
Que na quina de um rodeio,
Ganha medalha de ouro,
Flor de cavalo, de estouro,
Bom de rédea e fachudaço,
Sabe encostar pra um abraço,
Sabe fazer galanteio,
Quando chega num jardeio,
Ensina a atirar o laço.
As prendas gostam demais
De ver o seu pretendente,
Quando chega sorridente,
Numa manhã de domingo,
Montado naquele pingo,
Enfrenado com capricho,
Quando passa no bolicho
Ele redobra o entono
Porque sabe que o seu dono
Vai rever o seu cambicho.”