Um problema do passado no presente
A palavra anacronismo está muito presente. Anda na moda. Surge na boca de especialistas, especialmente historiadores e antropólogos, mas também na de diletantes. Só não está mais na moda do que a palavra imaginário, que tomou o lugar de ideologia, subjetividade, cultura e tantas outras. Tem imaginário ideológico. O imaginário é uma parte da subjetiva da cultura. Uma apropriação grupal ou individual da cultura. E o anacronismo que tem com isso.
Há um imaginário do anacronismo. E um crime. Um delito de anacronismo: julgar o passado pelos valores do presente.
A História, porém, é sempre uma releitura do passado pelo presente. A leitura do presente pelo presente é jornalismo.
Pessoas ingênuas condenam os historiadores por escreverem a história de uma época depois que a época passou.
Deve-se dizer a esses ingênuos que a história da Revolução Francesa continua sendo escrita e reescrita.
Cada época vai aos documentos para recontar o passado.
Se é delito de anacronismo condenar o passado com valores de hoje, deve ser crime de anacronismo também elogiar o passado com valores de hoje. Assim como deve ser falta grave tomar o anacronismo como álibi para desculpar uma época pelos seus crimes, omissões, atrocidades, iniquidades e barbáries.
Tomemos o caso Bolsonaro. Dentro de 100 anos, os historiadores deveriam desculpar o seu racismo e a sua homofobia tendo como o argumento o fato de que, hoje, a homofobia ainda é uma postura dominante?
Deverão os historiadores "compreeender" Bolsonaro dizendo "era um homem do seu tempo"? Ou nossa época já esta suficientemente fraturada para que esse argumento não sirva mais? Em relação, por exemplo, aos homens de 1950 essa atenuante deveria ser tomada como indiscutível e irrefutável?
Tem muita gente querendo cometer crime de anacronismo positivo incensando os farroupilhas com valores de hoje que eles não adotaram. Tem muita gente querendo absolver os farroupilhas do que deveriam ter feito acusando-me de anacronismo por supostamente julgá-los com valores de hoje. Pura manobra diversionista.
Em "História regional da infâmia", mostro que no século XIX sul-americano, e brasileiro, havia consciência clara do horror representado pela escravidão. Muitos países já haviam abolido a escravatura. Havia brasileiros em luta contra o cativeiro. Outros movimentos, mais progressistas, no nordeste brasileiro, colocaram a abolição no centro das suas preocupações.
Os farroupilhas não fizeram isso. Salvo quando precisaram seduzir os escravos adversários para ter mão-de-obra militar.
A maioria dos líderes farroupilhas morreu, depois da paz, deixando escravos para seus herdeiros.
Bolivar não fez isso. Em 1785, meio século antes do começo da rebelião dos farrapos, o general La Fayette e sua esposa compraram duas fazendas na Guiana Francesa. De imediato, libertaram os quarenta e oito escravos que trabalhavam ali, dando-lhes terra com que começar a prover a própria subistência.
Ainda no século XIX, Joaquim Nabuco diria:
“Tudo o que significa luta do homem com a natureza, conquista do solo para a habitação e cultura, estradas e edifícios, canaviais e cafezais, a casa do senhor e a senzala dos escravos, igrejas e escolas, alfândegas e correios, telégrafos e caminhos de ferro, academias e hospitais, tudo, absolutamente tudo que existe no país, como resultado do trabalho manual, como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar”, doação forçada dos negros aos brancos. E completaria: "
Antes de discutir qual o melhor modo para um povo ser livre de governar-se a si mesmo – é essa a questão que divide os outros – trata de tornar livre a esse povo, aterrando o imenso abismo que separa as duas castas sociais”. Para Joaquim Nabuco não havia dúvida, “o abolicionismo deveria ser a escola primária de todos os partidos, o alfabeto da nossa política”.
Se os farrapos foram homens do tempo deles, só podemos lamentar. Deveriam ter sido, como outros, homens à frente do seu tempo. O resto é anacronismo ufanista.
Se os pobres fazendeiros brancos, cegos pelo tempo em que viviam, não percebiam o horror da escravidão, milhões de homens percebiam isso a cada dia: os negros escravos.