Em alto estilo! Assim é que vai terminar, nesta segunda-feira, 16 de novembro, a terceira edição do ciclo de conferências “Fronteiras do Pensamento”, promovido pela Braskem. O palestrante do encerramento é nada menos do que Tom Wolfe, certamente o “jornalista” mais famoso do mundo. O evento, como sempre, acontecerá no Salão de Atos da Ufrgs a partir das 19h30. Como se diz entre jornalistas, Tom Wolfe é uma lenda viva da profissão. Nascido em 1931, em Richmond, nos Estados Unidos, chegou a fazer um doutorado em Estudos Americanos. Odiou. Dessa época, guardou esta lembrança: “Milhões de americanos agora fazem pós-graduação, mas basta pronunciar a palavra – pós-graduação –, e qual é a imagem que vem a mente? Imagem nenhuma, nem ao menos um borrão”. A turma da prática vai ao delírio. Wolfe foi atrás da realidade.
Arranjou emprego no “New York Herald Tribune”. Queria sujar as mãos com a vida. Desejava apertar a mão da realidade. Ansiava por acontecimentos. Corria o glorioso ano de 1962. Em pouco tempo, Tom percebeu que o jornalismo praticado ali era “bege”. Havia competição entre os jornalistas de investigação, que lutavam por “furos”, e havia também uma categoria particular, “os repórteres de reportagens especiais”, que sonhavam mesmo era em se isolar numa cabana “trabalhar dia e noite durante seis meses, e iluminar o céu com o triunfo final”. O triunfo final, segundo Tom Wolfe, “era conhecido como O Romance”. É o próprio Tom, em “Radical chique”, quem explica: “Eram sonhadores, claro, mas uma coisa eles nunca sonharam. Nunca sonharam com a ironia que vinha vindo. Nunca desconfiaram nem por um minuto que o trabalho que fariam ao longo dos dez anos seguintes, como jornalistas, roubaria do romance o lugar de principal acontecimento da literatura”. Um grande furo!
Resumo da notícia: Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote inventam o “Novo Jornalismo”. Um jornalismo, nas palavras de Wolfe, “para ser... lido como romance”. E todos eles se tornaram grandes romancistas. Dos quatro, três passaram por grandes universidades norte-americanas. Tom Wolfe virou celebridade mundial e milionário graças aos livros que publicou, entre os quais “O teste do ácido do refresco elétrico” (1968), “A palavra pintada” (1975) “Da Bauhaus ao nosso caos” (1981), “Décadas púrpuras” (1982) “A fogueira das vaidades” (1984) e “Um homem por inteiro” (1998), que já vendeu mais um milhão e quinhentos mil exemplares. Ele sempre foi um sonhador, claro, mas uma coisa ele nunca sonhou. Nunca sonhou com a ironia que vinha vindo. Nunca desconfiou nem por um minuto que o trabalho que faria ao longo dos 50 anos seguintes, como jornalista e romancista, roubaria da prática pura e simples o lugar de principal acontecimento do jornalismo. O sofisticado imaginário acadêmico de Tom Wolfe e sua cultura livresca levaram-no a reinventar a forma de escrever em jornal.
O imaginário de um radical chique
Tom Wolfe experimentou tudo. E tudo ironizou. Para escrever a sua famosa grande reportagem, “O teste do ácido do refresco elétrico”, morou com Ken Kesey, líder de uma turma de malucos conhecida como “acid heads”, que seria rebatizada pela revista “Newsweek” como “hippies”. Era um tempo de vacas magras e loucuras gordas. Até para ir ao banheiro era difícil. Precisava subir uma ladeira até um posto de gasolina e convencer o frentista a liberar a chave. O Novo Jornalismo sempre apostou na imersão, no “entranhamento”, no mergulho no universo do outro para tentar entender como esse outro funciona.
Em entrevista a revista “Magis”, Wolfe citou, lembrando os procedimentos do colunista James Breslin, os quatro eixos fundamentais do texto padrão do Novo Jornalismo: contar a história como uma sequência de cenas, usar diálogos extensos, descrever os personagens (como se vestem, falam, agem, sentem, pensam) e apresentar cada cena do ponto de vista de um personagem. O melhor personagem de Tom Wolfe é Tom Wolfe. Ele está sempre impecavelmente de branco. Terno branco. Bebia, até pouco tempo, champanha no café da manhã. Costuma cobrar 150 mil dólares de cachê por uma conferência. Ganhou fama descrevendo o submundo. Ficou conhecido como o “Balzac da avenida Park”. Passou a viver na alta sociedade. Não perdeu tempo e ganhou muito dinheiro narrando em detalhes, em “A fogueira das vaidades”, o submundo do melhor dos mundos, o da especulação financeira em Wall Street. Tom Wolfe é um homem de estilo. Radical chique.
Até isso, o seu estilo, Tom Wolfe ironizou. Quer dizer, a mania que se disseminou de imitarem o estilo dele: “A maioria das pessoas que acabou escrevendo sobre meu estilo, porém, tendia a se concentrar em certos maneirismos, o uso exuberante de pontos, travessões, pontos de exclamação, itálicos e, ocasionalmente, pontuações que nunca existiram antes (...) Logo descobri que as pessoas adoravam parodiar meu estilo. Em 1966, as paródias começaram a se multiplicar. Devo dizer que lia todas. Acho que porque no coração de toda paródia há um pequeno globo de ouro de tributo. Mesmo as paródias hostis admitem já de início que o alvo tem uma voz original. Não é com frequência que se encontra um estilo novo, ponto final. E se um estilo novo fosse criado não pela via do romance, nem do conto, nem da poesia, mas pela via do jornalismo – acho que isso pareceria excepcional”. Pareceria, não. É. A isso Truman Capote chamou a sangue frio de romance de não ficção”.
Tom Wolfe sempre soube que inventar em ficção é quase uma perda de tempo. Basta observar a vida como ela se apresenta e transpor para as páginas da literatura. A melhor literatura de cada dia, se praticada com alguma liberdade, é o jornalismo. Ninguém inventaria com tanto esmero e verossimilhança o caso do afroreagge no Rio de Janeiro. A questão, portanto, não está em inventar boas intrigas e histórias. Basta saber contá-las. Só que saber contar histórias é para poucos. Somente para radicais.
Romances de não-ficção no Brasil
Há muitos seguidores do Novo Jornalismo no Brasil. A revista “Realidade” foi o ponto alto das experiências com grandes reportagens em estilo mais literário entre nós. Nos últimos anos, jornalistas como Fernando Morais e Ruy Castro saltaram para os livros com muito sucesso. Mas preferem navegar num espaço indefinido. “Chatô”, de Fernando Morais, por exemplo, é uma biografia, uma grande reportagem ou romance de não-ficção? Vale lembrar que Morais narra os pensamentos do seu personagem em coma. Pode ser que a sua fonte tenha sido Chico Xavier.
Romance de não-ficção é uma categoria honesta. O leitor não compra gato por lebre. Fazer romance não significa necessariamente inventar histórias. Mas, acima de tudo, uma maneira de narrar, o que pouco tem a ver com romancear, que significa, no mais das vezes, mentir um pouco sob a cobertura da pseudoficção. Quando publiquei “Getúlio”, meu romance de não-ficção, um jornalista lento me perguntou se havia falhado o projeto biográfico. Guardadas as proporções, pois sou modesto, seria como perguntar ao Capote de “A sangue frio” se lhe tinha faltado imaginação. Eu sou modesto, mas não falso. Não hesito em afirmar que “Getúlio” é a mais radical experiência brasileira de romance de não-ficção. Ah, se eu tivesse começado a minha carreira no “New York Herald Tribune” em vez de na “Rede Baita Sol” de Palomas!
Para temperar o modelo de Tom Wolfe e Truman Capote, craques de um jornalismo de romance ou de romances jornalísticos, acrescentei em “Getúlio” um leve toque à Hunter Thompson, criador do “jornalismo gonzo”, com dois personagens claramente ficcionais que servem de ponto, como no teatro, ajudando a contar a história e a amarrar tantos fios. Tudo o mais é produto de pesquisa histórica. Um resenhista, no entanto, achou que meu livro era chato por ter verdade demais. No meu entender, eu merecia a glória. Não, melhor não. Thompson a alcançou. Não tanto quanto Ernest Hemingway. Mas ambos se mataram com tiros de espingarda. Eu, menos trágico, preferiria viver como Tom Wolfe. O problema é que não fico bem de terno branco. Na verdade, fico com ar de bicheiro.
Wolfe também. Capote fez romance de não-ficção. Wolfe talvez tenha feito jornalismo de ficção. Boa parte dos romances brasileiros recentes são jornalismo sem ficção e sem verdades profundas. Talvez a passagem de Wolfe pelo Brasil sirva para sacudir esse novo Novo Romance baseado num velho Novo Jornalismo que perdeu a radicalidade. Se a vinda tiver esse efeito benéfico, poderemos falar um dia na passagem do furacão Wolfe pelo Rio Grande do Sul. Tenho dúvidas. Nossa literatura está mais para um mix de folhas verdades com tomates secos. Falta alho poró. Como disse um dia justamente um certo Tom Wolfe, “não espero que nenhum grupo de escritores de ficção hoje leve realmente a sério o que acabo de dizer. De certo modo, acho que até conto com a tacanhice deles”. Afinal, “atualmente os escritores de ficção estão ocupados correndo para trás, pulando e gritando para um canteiro de begônias que chamo de Neofabulismo”. Touché!