Juremir Machado da Silva

Uma cena de morte na Trilogia de Palomas

Uma cena de morte na Trilogia de Palomas

O gordo Isidoro - bebedor de vinho tinto da pior qualidade - enforcou-se dentro da patente. O couro frágil do cinto esgarçou-se e a merda acolheu o desertor lá embaixo. A casinha entregou-se junto. Isidoro e a privada espatifaram-se na matéria fecal amarelada. Voou merda para todos os lados, respingando nas folhas das laranjeiras. O cheiro espalhou-se. A mulher de Isidoro intuiu algo e correu para o pátio. O ar fétido confirmou o desastre. Atordoada, encontrou o marido emborcado no buraco de pouco mais de três metros. O chapéu boiava. Isidoro não o tirava sequer à mesa.
Clementina ameaçou atirar-se também. O fedor impediu-a. Correu pelas ruas aos gritos, os filhos atrás, aos prantos. A Vila espreguiçou-se. Preferia-se esperar a volta do Comandante sem tocar no corpo.
Nicanor surgiu e silencioso começou a operação de resgate. Com uma lata, esgotou parte do conteúdo da fossa. Era baixo e não queria ser coberto pela bosta. Introduziu-se na cavidade, enterrou as mãos na merda e desvirou o cadáver que, ao cair, batera nas bordas do buraco e emborcara. O rosto do morto apareceu enlameado. Nicanor vomitou. Lá fora, a imobilidade. Colocou o corpo de Isidoro no ombro direito e tentou erguê-lo. Vacilou e caiu sentado. A merda sufocou-o por um instante. Os observadores saltaram para trás, salpicados.
Em pé, Nicanor recebeu o ar puro na cara. Reiniciou. Isidoro era um bloco, as botas cheias puxavam-no para baixo. O resgatador mudou de método. Saiu, trouxe o cavalo que atara no portão e aplicou a força da tração animal. O laço resistiu e Isidoro chegou a ser alçado até próximo da borda. As pernas, travessas, trancaram numa lateral da cova, a cabeça, noutra. Somente a barriga do soldado alcançou o exterior. Exausto, Nicanor retomou o corpo a corpo. Livrou-se da roupa - incômoda - e sob as risadas histéricas da plateia banhou-se na merda: nu e em público.
Um acontecimento na sua vida. Quando a doida atravessou o terreiro, dançando, a cena mantinha-se inalterada. Nicanor atolado até o peito sustentava o morto obeso com um braço e limpava o rosto com o outro.
A louca gargalhou. A louca festejou. A louca, feliz, despiu-se e conquistou um lugar na merda. Liberta, a louca beijou os cabelos de Isidoro - menos negros do que de costume - e acariciou as costas esqueléticas de Nicanor e cantou. A voz confrangeu as estupefatas (indiferentes?) testemunhas. Vilma beijou os lábios do morto, enfiou-lhe a língua na boca, sugou-lhe líquidos putrescentes. A língua da demente tornou-se marrom, depois verde, verde e marrom.
O vômito escorreu-lhe pelo pescoço e misturou-se aos dejetos sobre o tórax do suicida. Nicanor, quieto. A mão da louca deslizou entre as pernas de Isidoro, apertou-lhe o pau flácido e ressurgiu enegrecida. Afagou os próprios cabelos e suspirou: era a dama, a mulher de dois homens, nua e soberana ante a vida e a morte. O grotesco divinizava-a.
Ah, sorriu, se a lua viesse me ver! Se fosse noite e o silêncio amornasse os corações. Se todos, pelados, trepassem descontraídos em uma vala de merda. Palomas, merda, poesia, perfume nas madrugadas do Comandante e o inusitado. Agradeceu a Deus a felicidade inesperada. As contorções estomacais encerraram o ritual. Nicanor puxou o corpo para fora, Vilma empurrou-o de baixo. Um gemido horripilou os voyeurs. A filha mais velha do Comandante, branca, bela e magérrima, desmaiou. Vilma penteou o morto. Marcelina trouxe água do poço.
Arrastaram os despojos ao galpão dos presos e higienizaram-no. Nísia entoou as primeiras palavras da ladainha fúnebre. As vozes masculinas ressoaram no coro. O cântico elevou-se assombroso, desafinado e rouco. Vilma, nua, seguiu pelo corredor que conduzia ao armazém, desinteressada do velório convencional.
Instalaram Isidoro sobre a longa mesa da cozinha, deslocada para o meio da sala de visitas e escritório do Posto Policial. Os pés do cadáver roçavam o lençol branco estendido na porta da frente. Vestiram-no com a melhor farda e nos coturnos via-se apenas um furo, acima do calcanhar do pé direito. A noite espichou-se à luz das lamparinas. Rompida a meia-noite, sobraram Nelmar e dois bêbados a velar. Marcelina beijou os pés do falecido ("Que Deus o tenha") e embrenhou-se nas ruelas negras.
(Cada exemplar da Trilogia de Palomas está a dez reais no balaio da Sulina, na Feira do Livro de Porto Alegre)