Juremir Machado da Silva

Uma cena de Solo no Peru

Uma cena de Solo no Peru

Não peguei o trem de volta para Cusco.
Nem prossegui até Águas Calientes. Voltei, sempre acompanhando os trilhos, na direção de Ollantaytambo.
Durante 33 dias, errei pelo Vale Sagrado.
Se yana significava deixar tudo para trás, agora eu era um. Havia esquecido meu cartão de crédito no cofre do hotel, em Cusco. Depois que o dinheiro acabou, vaguei, a pé, ao longo do Vilcabamba ou me embrenhando nas encostas das montanhas, pedindo comida, dormindo com lhamas e alpacas, sendo expulso de casas como inútil e perigoso, humilhado, agredido e até confundido com foragidos da polícia, principalmente com traficantes de cocaína. Cheguei a ser considerado um temível representante de Fernandinho Beira-Mar no Peru. Não seria má idéia.
Vi, certo dia, um raio de sol penetrar por uma fresta entre duas montanhas, como se invadisse uma casa através de uma janela muita alta, e julguei ter chegado a Pacaritampu, a Pousada do Amanhecer, onde Manco Cápac nasceu por obra de outro raio de sol. Fiquei deslumbrado assistindo à iluminação do vale feito um renascimento extemporâneo. Creio que se comemorou o Inti Raymi, a festa do sol, que, uma vez por ano, faz de Cusco novamente o “umbigo do mundo” peruano, mas de nada tenho certeza, pois nesse tempo estive totalmente fora de mim, mergulhado num transe, com a mente mais branca do que a neve eterna dos picos soberanos que me cercavam e vigiavam. Em algum momento, disseram-me que, seis meses depois, no solstício de verão, eu deveria beber com meus antepassados para que me ajudassem a ser tão valentes quanto eles.
Lembro-me de que respondi de forma evasiva.
“Não é possível.”
“Por quê?”
“Eles não têm múmia.”
“Mas têm restos mortais, não?”
Devo ter fugido para não continuar a conversa.
Eu vi danças e feiras, homens trabalhando, alguns mexendo na terra, crianças brincando, mulheres vendendo artesanato em mercados populares, uma festa de cores, pigmentos, temperos, lãs tingidas, roupas típicas, bocas sem dentes, rugas, límpidos sorrisos brancos, garotas na flor da idade, velhos solenes à espera da morte.
Eu vi um homem morrer e um menino vir ao mundo. Eu vi o sol nascer e se pôr. Eu vi a Lágrima de Sol tornar sagrado o Vale com sua altivez e beleza. Mas vi também a indústria do turismo, com seus cartões de crédito e suas novas hordas em deslocamentos inúteis, se confundir com os rastros do passado, escambo, crenças, imaginários, mitos, deuses e, principalmente, visões do futuro.
Uma vez, sentei-me no trono do Inca, em Ollantaytambo. Um garotinho, de uns dez anos, bem magricela, de fala espanhola mascada, vestindo uma camiseta do Homem Aranha, gritou para a mãe:
“Ei, olha o Atahualpa.”
Um ancião, a quem pedi um prato de um ensopado de batata, me disse, depois de matar a minha fome:
“Você é turvo.”
Outra vez, cheguei até a ponte, onde o trem, a cinco minutos de Ollantaytambo, atravessa o Vilcanota. Ali, saído do transe, fiz um balanço completo da minha vida. Depois de muito tempo, pensei no gesto de Céline, jogando-se do Pont des Arts, em Paris, e quis me atirar nas águas do rio sagrado. Os trilhos eram um só caminho com duas direções, o que representava, no mínimo, dois caminhos. Mas eu queria romper o sentido horizontal das escolhas e estabelecer um derradeiro caminho vertical e certeiro: o da morte sem crédito. Seria, com certeza, uma forma justa de saldar a minha enorme dívida com o passado.
Não sei se me faltou coragem para o salto ou se, de fato, entendi que precisava continuar vivo para ir até o fim na reconstrução do passado que ainda me escapava. Às vezes, eu me sentia como o próprio Vale Sagrado, subitamente iluminado por um raio de sol matinal que se infiltrava por uma janela da alma, acendendo escarpas e terras férteis, para arrancar das trevas pedaços inteiros da minha vida. A noite, porém, voltava a cair, apagando lembranças, e um grande branco cobria as regiões submersas que lutavam para vir à tona e mais ainda os continentes negros que se escondiam em camadas profundas de um esquecimento traumático. Pior mesmo era quando a indiferença me dominava como um grande branco.
Numa comunidade perdida numa reentrância do Vale Sagrado, perto de Urubamba, vi mulheres preparando a chicha, a bebida sagrada dos rituais incas, fortemente alcoólica, e também a bebida de todos os dias, bem mais suave. O milho era umedecido e enrolado em folhas vegetais para fermentar. Havia um momento do lento processo em que se moía uma parte do milho fermentado, enquanto a outra era mascada por mulheres sentadas numa roda numa solidão coletiva feita de calma, de resignação e de uma estranha paz feita de musgos. Mascavam o grão, sem cerimônia, para ativar o fermento, e o cuspiam em suas vasilhas de argila. Aquilo revoltou o meu estômago sensível e etnocêntrico.
Marta, uma jovem de feições indiáticas, porém, magra e comprida, percebendo o meu engulho, levantou-se:
“Beba”, disse, me alcançando um copo de chicha.
“Não estou com sede.”
“Você precisa beber chicha para recuperar a sua energia” ela disse, sempre me alcançando o copo.
“Minha energia?”
“Qualquer um vê a sua fraqueza.”
“Não é o meu corpo que está fraco.”
“Eu sei.”
“Como pode saber?”
“Não sou cega nem burra.”
Foi a única mulher com quem me deitei no Vale Sagrado.
Eu a amei à luz das estrelas. Seu corpo era, ao mesmo tempo, fresco e muito quente. Sua boca tinha gosto de chicha e de noite escura. Ela me fez gozar com rara facilidade. Eu lhe dei o mesmo prazer.
Depois, fugi.