Uma cena de Solo no Rio de Janeiro
Uma manhã banal em Ipanema, enfim.
Assim se passaram três dias em Ipanema. No quarto, com um sol de rachar, topei com um negro enorme, reluzente, musculoso. Estava jogando vôlei de praia. Fiquei conferindo o tamanho do seu instrumento. O troço parecia querer explodir a sunga. Acho que não dava para pegar tudo nem com as duas mãos. Tentei me imaginar chupando a benga do crioulo. Deixei rolar. Não sou de encompridar história. O tempo passou e eu não arredava o pé dali. O negão percebeu. Volta e meia, jogava a bola para o meu lado. Quando vinha buscar, sorria. Uns dentes brancos impecáveis. Músculos perfeitos. O negrão ideal para testar a veadagem de alguém. Que negão gostoso!
Chamava-se Marcel. Tinha 23 anos e 1m87cm. Trabalhava como modelo. Sabem, modelo? Não foi difícil acabar na casa dele, um apartamento de um quarto na Tijuca. Bastou falar em música e literatura para que ele se mostrasse um cara bacana, sofisticado e eclético. Tinha lido Michel Houellebecq, mas preferia Paul Auster e Elmore Leonard. Ouvia Leonard Cohen, mas curtia mais música eletrônica. É verdade que adorava Cássia Eller. Conhecia Paris, embora preferisse Londres e Nova York. Amava cores cítricas. Sem dúvida, éramos um belo par. Ou devo dizer um belo casal? Ao contrário de mim, o negão era puto assumido e sempre em busca de caça. Gostava de louros. De resto, louro veado era o que mais tinha no Posto 9 naqueles dias. Mas eu queria começar (se é que queria mesmo começar) com um brasileiro legítimo, autêntico, genuinamente nacional, ainda que não fosse um operário. Um negão pausudo.
O meu psi ia ver só. Ah, ia ver...
Depois do terceiro uísque (eu mesmo tomei dois para ganhar coragem, apesar de achar o gosto horroroso), Marcel simplesmente tirou a roupa e me puxou para perto dele. Envolveu-me com os braços. Eram duas toras esplêndidas. Afundei contra o seu peito. Quando ele se afastou devagarzinho para me olhar nos olhos, acho, baixei a cabeça e vi algo inimaginável: o pau do crioulo era uma tora de meio metro, sem exagero, um troço enorme, duro como um ferro, uma viga, colossal, brilhante, brilhosa, quero dizer, um troço horrendo, atroz, repugnante. Aquilo ia me rasgar até as tripas. Soltei um berro e corri para a porta. Merda, eu estava disposto a sair pelado pela rua. Que me prendessem por atentado ao pudor público, que me condenassem como maníaco sexual, sei lá, tudo, tudinho, menos ser empalado por aquele troço paradoxal. Marcel me alcançou no elevador. Foi legal: entregou as minhas roupas e me deixou ir embora sem o menor comentário.
Na rua, respirei fundo e me senti feliz, intacto, com minha identidade cristalinamente resolvida. Se fosse gay, eu teria dado para aquele negrão dotado de um cajado da grossura de um carvalho e de uma beleza incontestável. Fugi como um homem macho. Consegui um táxi e fechei os olhos. Só os abri quando começou o tiroteio. Os bandidos tentavam bloquear um túnel. Vi gente correndo para todo lado. Acho que uma bala perdida encontrou o peito de uma mulher dentro de um Corsa. Coisa de rotina.
Sei que pode parecer inacreditável, mas foi exatamente assim como estou contando. Pura e simplesmente assim. Claro que teve muito mais detalhes, idas e vindas, olhares, estratégias de aproximação, frases ambíguas e o caralho a quatro. Evidente que Marcel não foi o primeiro a cair na minha rede. Quase me engracei com outros, mas tive medo, hesitei, inventei desculpas, caí fora na hora decisiva, enfim, vacilei. Obviamente que eu poderia descrever as ruas, o movimento, os bares, as mulheres lindas na praia, as gatinhas, as diversas categorias de gays, a noite na Farme de Amoedo, os comentários sobre a prisão da dona de uma pizzaria fashion por tráfico de cocaína dentro de pedaços de boi, o tempo, a cor do céu, o nível de poluição do mar, da areia, o desespero das pessoas no meio do tiroteio, a condição social dos meninos do arrastão, uns magrelas risonhos e tudo mais, tudo aquilo que fazem os ficcionistas para fazer crer que falam do real. Aqui entre nós, foda-se o real. Não sou ficcionista. Conto o que me marcou de fato.
Poderia contar o passeio que fiz numa Land Rover com um bando de americanos, todos nós vestidos como que para um safári, protegidos por seguranças armados de metralhadoras. Fizemos turismo na favela da Rocinha.
Foi deliciosamente exótico e perigoso.
No trajeto, vimos uma boa dúzia de cadáveres.
Um francês comentou comigo algo incrível: como os miseráveis podem ser tão felizes e criativos.
Parabenizei-o pela observação acurada e mostrei-lhe, como uma confirmação do que dizia, o Caveirão, um veículo blindado da polícia escalando o morro.
Voltei para casa dois dias depois do encontro fracassado com o meu negão de pau grande, marquei hora com o psi e, sem nem chegar ao divã, disparei:
“Eu não sou veado, seu puto.”
“(...)”
Foi a minha última sessão de psicanálise.
(Solo pode ser adquirido na Livraria Cultura do Bourbon Country)