Uma crítica à mídia no caso do Irã
Olá, Juremir! Caso não lembres, fui teu colega dos bancos do Jornalismo da PUCRS, lá nos idos de 81... nossa!
Mas, no terceiro semestre, pulei a cerca da FAMECOS e fui para o Direito da UFRGS, te abandonei como colega....
Escrevi uma crítica à imprensa, que enviei a sites jurídicos nos quais escrevo de vez em quando (para saciar um pouco a sede deste meu lado "jornalista-frustrado").
Como és do meio, me ocorreu te enviar também, até porque lembrei de ti ao escrever o último parágrafo.
Acho que eu não teria dado muito certo como jornalista... Ainda mais atuando em meio a feras como tu.
Abraço! E prossiga no teu caminho de sucesso, do qual sou testemunha ocular quieta (leitor, em geral, não faz barulho).
Rogério.
A IMPRENSA BRASILEIRA, POR INCOMPENTE OU POR COMPROMETIDA COM INTERESSES ELEITORIAIS OU EMPRESARIAIS, NÃO CONSEGUIU IDENTIFICAR E NOTICIAR AO PÚBLICO O FATO JORNALÍSTICO MAIS IMPORTANTE E DE MAIOR DIMENSÃO DESTA SEMANA: O COLOSSAL CRÉDITO DE CONFIANÇA E RESPEITO OBTIDO PELO BRASIL NA MEDIAÇÃO DESTE ACORDO ENTRE O IRÃ E A COMUNIDADE INTERNACIONAL
(...)
Vamos, então às duas notícias, começando por aquela que, para nós, brasileiros, é a mais importante:
1. Brasil obtém sucesso na intermediação de acordo entre Irã e comunidade internacional, após tentativas fracassadas da própria ONU.
2. Há dúvidas sobre se o Irã cumprirá o acordo entabulado com a comunidade internacional e que foi intermediado com auxílio do Brasil.
Reparei nos jornais, rádios e telejornais: estamos assistindo a divulgação da segunda notícia, com a sonegação incrível da primeira.
Na verdade, a segunda notícia não é exatamente um fato, mas uma dúvida, uma especulação, derivada do acontecimento principal, o qual, por sua vez, não foi veiculado como a grande notícia, a grande novidade que é.
Esta seria a forma da imprensa nacional, a olhos vistos, de minimizar o brilhante e exitoso papel que o governo brasileiro desempenhou para o alcance deste acordo? Se não for, há outro motivo possível para isso: o fato da existência de uma posição contrária de parte dos nossos habituais colonizadores e dominadores econômicos, os EUA, por odiarem o Irã e sonharem com a destruição daquele país.
Ora, se o Irã irá ou não cumprir o acordo é mera especulação. Quando muito, uma notícia secundária. Talvez nem chegue a atingir o status de notícia. O fato principal, contudo, para nós brasileiros, é que o acordo foi selado e, para isso, o Brasil teve participação exitosa e fundamental. Esta era a notícia. O prato principal. Todavia, este prato não foi servido, esta notícia não foi divulgada. Permaneceu escondida, oculta.
A imprensa brasileira não divulgou que este mesmíssimo acordo já havia sido tentado pela ONU e por outros países no passado, sem resultados. E que foi através dos esforços de nossa diplomacia que o Brasil conseguiu obter a conclusão do pacto, o qual fora tentado antes, mas sem sucesso.
A segunda notícia, a que revela o fato de uma especulação, não tem como desconstituir o fato principal, concreto, que foi graças à intermediação exitosa do Brasil que foi possível atingir o fechamento deste acordo.
(...)
Os Estados Unidos têm sido hostis com o Irã desde 1978, quando o presidente-teleguiado, Xá Rezah Pahlev, o corrupto que governava o Irã sob controle remoto da Casa Branca, foi deposto pelos aiatolás. Lembro muito bem que foram expulsas de lá todas as empresas petrolíferas norte-americanas que se apoderavam de todas as reservas de petróleo iranianas. Os ianques, é claro, ficaram furiosos com os aiatolás por isso. Jamais perdoaram os iranianos, que desde passaram a ser considerados "infiéis" à cartilha de dominação política e econômica estadunidense. Mas a verdade, mesmo, por trás de tudo isso, é que os ianques continuaram de olhos cobiçosos por sobre as reservas de petróleo daquele país. E digo algo que não significa aprovação às atitudes dos iranianos, mas compreensão: os norte-americanos estão ali, militarizados, em toda a volta: em Israel, no Iraque e no Afeganistão. Será que os iranianos não têm mesmo do que se preocupar?
(...)
Ora, se o Irã está sendo acusado de blefar, então vamos combinar uma coisa: blefe, mesmo, é com os EUA.
Assim, neste caso do Irã, sem julgar o que ocorre de bom ou de ruim neste país (cuja análise não cabe neste contexto específico), a participação brasileira entrou em boa hora no circuito. Agiu o Brasil como mediador. E todo mediador encerra seu trabalho quando a mediação é finalizada. Não pode ser responsabilizado ou desmerecido se, posteriormente, o acordo selado não é respeitado por algum dos acordantes.
A notícia sonegada ao público brasileiro, então, é a do fato mais importante da semana. Fato de interesse jornalístico direto a nós todos, brasileiros: sem dúvida, a interrvenção do Brasil neste caso foi tremendamente importante! Foi uma demonstração clara de habilidade do país para auxiliar em conflitos. Foi uma maneira de mostrar ao mundo que nosso país é vocacionado para a paz e ao entendimento mundial. Que o Brasil tem muito de energia e de disposição para contribuir para esta paz global. Que se dispõe a agir e a atuar junto com as demais nações.
Mas os jornais, rádios e televisões brasileiras também continuaram no tema do hipotética descumprimento futuro do Irã. Não disseram que esta participação essencial do Brasil num delicado conflito internacional pode ter sido a mais importante da História. Uma participação que gerou (e gerará ainda), por si só, um descomunal capital de respeitabilidade e confiabilidade ao nosso país e à nossa população junto a todas as nações do planeta. Não importa o que fizer ou deixar de fazer o Irã, os EUA, a ONU, ou quem quer que seja, daqui para frente. O fato é que o Brasil fez um trabalho ímpar, colossal, em prol da paz mundial, desempenhando com êxito o papel de principal mediador.
Este fato se desdobra ainda numa outra notícia, também importante, também jornalística, que foi deixada de lado. Pela primeira vez em toda a sua História, o Brasil deixa de ser um mero coadjuvante, um simples figurante, e assume o papel de protagonista principal numa situação grave e de grande tensão mundial. Protagonista-cirurgião, num assunto delicado e de interesse e preocupação de todos os povos do planeta. Como se fosse aquele único policial habilidoso que consegue chegar até aquele sujeito, armado com uma bomba dentro de um trem lotado, disposto a explodir tudo, e consegue convencê-lo a começar a desativar a bomba. A parte dos exageros, este é o caso, ainda que apenas aos olhos dos ocidentais. Então, quem consegue esta proeza e este avanço na delicada situação não tem nenhum crédito? Ou devemos primeiro esperar para ver se a bomba vai explodir para reconhecer o êxito do trabalho já feito? A ONU tentou e não consegui!
Analistas e colunistas exasperados a quem ouvi, assisti e li esta semana não souberam ou não quiseram identificar a notícia mais importante. Alguns, riram dela, zombaram do Lula e de seu chanceler (Arnaldo Jabor, que se acha o pai daquela menina chamada Verdade...). Ao invés de dar a notícia mais importante, calaram-se todos, então.
Falhou, assim, escancaradamente, a imprensa brasileira, no seu dever de informar, de dar a notícia. Seja por incompetência, seja por comprometimentos. Renunciaram ao dever sagrado de noticiar os fatos.
Isso me faz lembrar da opção que fiz um dia, algumas décadas atrás, ao desistir de estudar jornalismo e ir cursar ciências jurídicas e sociais. Veja-se a falta que faz uma imprensa forte, livre e competente, a um país com as dimensões e a importância do Brasil!
Rogério Guimarães Oliveira
Advogado, Porto Alegre