A cor das nuvens
Têm cor as nuvens. Elas podem ser azuis, amarelas, brancas, cinzas e até vermelhas.
No filme “Moça com brinco de pérola” o pintor Vermeer e sua modelo analfabeta e linda percebem e contemplam as cores das nuvens. Isso é a arte. Pode ser mais fascinante do que a vida. Eis um filme de verdade! Na sua delicadeza e lentidão narra a relação misteriosa entre criador e obra. Se tivesse de escolher um modelo entre todos os inalcançáveis eu sonharia em escrever como Vermeer pintava. Mas para isso eu precisaria virar gênio. Em Vermeer o cotidiano e a sutileza encontram-se numa tonalidade inexplicável.
Dá vontade de chorar diante de tanta beleza e cor. Aquilo parece mais real do que a vida.
Há um efeito de transfiguração pelo mais simples.
“A ruela”, um dos mais célebres quadros de Vermeer, pintor holandës do século XVII, poderia figurar como um manifesto literário. É uma fotografia com alma. Tem a profundidade cristalina de um conto de Tchecov e a tristeza sem drama de um final de tarde no subúrbio. Vermeer inventou a poesia em prosa com pincéis. Por trás da obra sempre se esconde um abismo de pequenos acontecimentos. Tudo se apaga quando se atinge o equilíbrio. A arte é a vida pelo olho do pássaro. Nela a verdade e a ficção coincidem num além ou num aquém do real. Atinge-se o objetivo quando se torna impossível separar vivido e imaginado.
Na arte a única mentira é a inverossimilhança.
Inverossímil é não enxergar as cores das nuvens e pensar que no céu pairam somente correntes de ar. Vermeer trabalhava com uma câmara escura. Buscava mesmo fotografar o instante eterno do cotidiano na sua aparência profunda e enternecedora. Alguns conseguem isso em letras de canções. É o que ocorre em “Gente humilde”. A descrição das cadeiras na calçada é uma cena escrita com os pincéis de Vermeer. Nada me parece mais lindo e comovente do que o fluir da existência na quebrada de uma esquina qualquer.
Na mesmice de todo dia brilha uma transcendência mágica.
Paul Auster, um dos mais talentosos escritores da atualidade, não esconde o seu fascínio por Vermeer. Muitos cronistas, na falta de pretensão do gênero, conseguem, às vezes, pinceladas capazes de cristalizar o olhar de uma moça atravessando a rua enquanto uma multidão se perde no lado oposto. Ser um grande escritor é fácil: bastar unir perfeitamente Vermeer e Tchecov.