Mantenho minha convicção: escrever é abrir estradas. Ando pelos caminhos do Rio Grande do Sul, do Brasil e até do mundo. Modestamente. Fiz minha peregrinação anual à França. Amanhã e segunda-feira, falarei em Manaus. Jamais deixo de lado os gaúchos. Em poucos dias, estive em Alegrete, Santa Maria e na Feliz. É assim que os moradores do lugar falam: na Feliz. Foi bacana. Participei da 8ª Semana da Diversidade Cultural do Colégio Estadual Professor Jacob Milton Bennemann. Aprendi uma lição: escola pública funciona. O JBM é referência. Os alunos leram meu livro de crônicas A orquídea e o serial-killer e me deram aulas sobre bóson de Higgs, difração da luz e outros fenômenos misteriosos do universo invisível das partículas.
Há algum tempo, escrevi uma crônica intitulada “Partícula de Deus”. Dizia assim: “Tenho prestado a atenção em todas as reportagens sobre o bóson de Higgs. Continuo sem entender. Na Wikipédia, colhi esta definição esclarecedora: ‘Todas as partículas conhecidas e previstas são divididas em duas classes: férmions (partículas com spin da metade de um número ímpar) e bósons (partículas com spin inteiro)’. Ah, bom! A culpa não é da ciência, nem dos bósons. É minha. Sou limitado. Compreendi, no entanto, que a ‘partícula de Deus’ ajuda a explicar a origem da massa das outras partículas. O problema do bóson de Higgs é que se trata de algo mais efêmero que a fama de certas celebridades da televisão”. Os alunos do JBM investigaram. Refletiram. Nem a fé escapou. Higgs ficou mais denso.
Teve de tudo: de teatro a ciências naturais. Passei até por uma experiência fabulosa de iniciação: pela primeira vez na vida, joguei videogame. PSG X Barcelona. Eu nunca tinha visto um desses jogos em funcionamento. Não tenho filhos. Sou dinossauro. O Thomas, que comandou o time do Barcelona, me deu mole. Teve dó do velhinho retardatário. Ficamos no 0 a 0. A partida durou longos três minutos. Nunca esquecerei esse empate inaugural. O diretor do JMB, Edson Pedrotti, é um desses agitadores agitados que apostam no movimento como modo de transformação. Acredita na educação e, como ele mesmo diz, nunca fica de cabeça baixa lamentado dificuldades ou olhando para cima à espera de que as coisas caiam do céu. Atua. Funciona.
Comi cuca com linguiça e galinhada. Fiquei sabendo que tem muito moranguinho da região vindo de Minas Gerais. Aprendi que, em algum momento, a política da vizinhança esteve dividida entre Montecchios e os Capuletos. Quer dizer, “puda” e “pibi”. “Puda” tem a ver com nata e manteiga. “Pibi” é pinto. Essas partículas dividiriam clãs progressistas e mais conservadores. Não pude saber se ainda valem ou se funcionavam no tempo em que os alemão não devia casar com “bloa” (lusos). Foi um aprendizado rápido. Sou lento. Posso ter aprendido tudo errado, inclusive as grafias. Mas fiquei com isso na cabeça. Tenho outra convicção: compartilhar. Gosto dessas marcas culturais que revelam ou escondem singularidades.
Na Feliz, PSDB e PT concorreram unidos contra o PMDB. Não é um sinal de originalidade?