Juremir Machado da Silva

Uma fábula hipermoderna na Campus Party

Lula chega à Dinamarca para defender candidatura do Rio nas Olimpíadas de 2016
Lula chega à Dinamarca para defender candidatura do Rio nas Olimpíadas de 2016 Foto : Valter Campanato/ABr
Os sinais de um novo tempo precisam ser capturados.
Eles trazem aflição para alguns e alegria para outros.
Normalmente revelam contradições que, com o tempo, dissolvem-se em novos imaginários.
A era da propriedade intelectual e do direito autoral está no fim.
Na Campus Party, em São Paulo, jovens vibram com a nova realidade.
Assistem a uma palestra sobre os perigos da regulamentação da internet.
Ouvem mais um brado em nome da internet livre.
Gritam contra as corporações capitalistas beneficiadas pelo anacronismo da propriedade intelectual.
Alguns, mais entusiasmados, vibram com o prenúncio do fim da maldita propriedade privada.
Os mais exaltados urram contra Sopa, Pipa, Acta e demais tentativas de repressão à liberdade do conhecimento.
Denunciam legisladores e policiais, esses aparatos da classe dominante para manter seus privilégios.
Condenam os reacionários que não compreendem o avanço tecnológico, esses idiotas que não entendem a internet, que não percebem que um mundo ficou para trás, esses homens anacrônicos, esses dinossauros do impresso.
Um slogan se impõe: fazer download não é pirataria.
Outro: falar pirataria é conservadorismo e ignorância.
Ao sairem da palestra, um rebuliço.
Computadores sumiram.
Sumiram?
Foram roubados.
Os jovens gritam: pega ladrão!
A polícia é chamada.
Dois garotos travam um diálogo inverossímil:
– Levaram meu PC, cara. Que sacanagem!
– Isso não pode ficar assim, brother.
– Claro que não. Meu HD de 30 terabytes, cara!
– Cheio?
– Cheinho. Baixei tudo o que deu.
– Legal?
– Pô, cara, tá me zoando? Alguém vem aqui para baixar troço legal com uma internet dessa velocidade?
– Só tava testando você.
A polícia prende um suspeito.
A turma mais radical quer linchá-lo.
O cara tenta enfrentar a galera:
– Vocês não baixam os troços dos outros?
Fecha o pau.
A polícia mal consegue proteger o "criminoso".
Um carinha com ar de ingênuo resolve explicar:
– Quando a gente baixa um arquivo, o dono dele não o perde. É uma cópia.
– Dã! – exclama o "meliante".
– Quando você pega o computador, a gente fica sem ele.
– Dã!
– Quando você pega o arquivo de alguém, você fica com o trabalho dele, que não recebe de você nada em troca – explica o totalmente inverossímil ladrão de computadores, representante rasteiro dos defensores da propriedade intelectual, tentando certamente salvar a sua pele com uma desculpa mal bolada.
– Dã! – exclama, por sua vez, o guri do computador roubado.
Fim, para bem ou para mal, de uma época.
*
Resta a realidade.
Na Folha.com:
"Participantes da Campus Party denunciam furto de PCs e gadgets; um suspeito foi preso."
O que teriam dentro?
*
Insuperável é este lamento do Partido Pirata Brasileiro:
"PartidoPirataBR Partido Pirata #PPBr
Ontem tivemos um episódio lamentável, roubaram a sacola de camistas do #PPBr que precisávamos vender na #cpbr5, nossa única fonte de renda."
Uau! Chamem a polícia.