Juremir Machado da Silva

Uma história do negro no Brasil

Em 1988, a Biblioteca Nacional organizou uma exposição sobre a história do negro no Brasil e publicou o texto que segue catálogo da mostra.

Nunca é demais lembrar a síntese que segue.

A dívida brasileira com os negros é impagável.

A resistência a qualquer política que diminua essa mácula histórica é infame.

A política de cotas é o mínimo que se pode fazer para começar a eliminar as consequências inerciais da nossa maior infâmia em cinco séculos.

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A ESCRAVIDÃO NO BRASIL
"Sem negros não há Pernambuco", afirmava no século XVI o Padre Antônio
Vieira. E outro jesuíta, André João Antonil, escrevia, no século XVI11, no seu Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas: "os escravos sâo as
mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível
fazer, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente".
O Brasil, em razão de sua dimensão e da ausência de preocupação coma reprodução biológica dos negros, foi o maior importador de escravos das Américas.
Estudos recentes estimam em quase 10 milhões o número de negros transferidos para o Novo Mundo, entre os séculos XV e XIX. Para o Brasil teriam vindo em torno de 3.650.000.
Diversos grupos étnicos ou "nações", com culturas também distintas, foram
trazidos para o Brasil. A Guiné e o Sudão, ao norte da linha do Equador, o Congoe Angola, no centro e sudoeste da África, e a região de Moçambique, na costa oriental, foram as principais áreas fornecedoras. Das duas primeiras vieram, entre outros, os afantis, axantis, jejes, peuls, hauçás (muçulmanos, chamados malês na Bahia) e os nagôs ou iorubás.

Estes últimos tinham uma grande influência política, cultural e religiosa em ampla área sudanesa. Eram de cultura banto os negros provenientes do Congo e de Angola — os cabindas, caçanjes, muxicongos, monjolos, rebolos—, assim como os de Moçambique.
Os escravos trabalhavam na agricultura, nos ofícios e nos serviços domésticos
e urbanos. Os negros do campo cultivavam para a exportação — atividade que
dava sentido à colonização — a cana-de-açúcar, o algodão, o fumo, o café, além
de se encarregarem da extração dos metais preciosos. Os negros de oficio
especializaram-se na moagem da cana e no preparo do açúcar, em trabalhos de
construção, carpintaria, olaria, sapataria, ferraria, etc.

No século XIX, nâo foram poucos os escravos que trabalharam como operários em nossas primeiras fábricas.
Quanto aos negros domésticos, escolhidos em geral entre os mais
"sociáveis", cuidavam de praticamente todo o serviço das casas-grandes e habitações urbanas: carregar água,.retirar o lixo, além de transportar fardos e os seus senhores em redes, cadeiras e palanquins.
No século XIX generalizou-se ainda a atividade dos negros de ganho e dos negros de aluguel. Os primeiros buscavam serviços na rua, trabalhando como
ambulantes, por exemplo, com a condição de dividir com os seus senhores a
renda obtida. Os segundos eram alugados a terceiros também para variados
serviços. Era comum vê-los nas ruas falando alto, oferecendo-se para trabalhos, chamando a atenção dos pedestres ao se aproximarem com fardos pesados, entoando cantos de trabalho. Ê, cuê... / Ganhado... / Ganha dinhero / Pra seu sinhô.
Nas minas e lavouras de exportação, nestas últimas na época de safra, era comum o escravo trabalhar até 14 ou 16 horas, alimentando-se e vestindo-se mal e se expondo ao clima. Em geral amontoavam-se em senzalas impróprias para a habitação e careciam de cuidados médicos, sendo frequentemente vítimas de doenças que se tomavam endêmicas, como a tuberculose, disenteria, tifo, sífilis, verminose, malária. A média de vida útil, por isso, variava de sete a dez anos.
Não há motivos para se duvidar da brutalidade das condições gerais de vida e da violência dos castigos recebidos. A legislação portuguesa e brasileira, a documentação iconográfica e os relatos deixados pelos brancos e, em número muito menor, pelos negros (a mesma legislação impedia o acesso à educação)
dão forte testemunho a respeito.