Juremir Machado da Silva

Uma música e um dia em Uruguaiana

Pelos Interiores

 

      Gosto da palavra interior. Ela nos revela e enraíza. Interior é termo que se usa para designar o imenso universo fora da capital. Sou do Interior, de Santana do Livramento. Recebi uma homenagem emocionante. Uma música, “Velha Palomas”, feita para mim: letra de Florêncio Assis Pereira Teixeira e música de Clóvis Soares de Souza. Intepretação de Tony Acosta. Quem quiser ouvi-la é só entrar no meu canal no youtube. Fiquei emocionado. É linda e me traduz totalmente. A canção mostra o meu interior subjetivo e biográfico, minhas paixões e lugares. Por outro lado, fiquei muito honrado com o convite que recebi do Movimento Negro para palestrar em Uruguaiana, onde estive há dois dias. Encontrei uma família, uma comunidade sedimentada entre gerações, Elsa, a atual presidente, Dona Elsa, a matriarca, cheia de sabedoria, Seu Charuto, uma referência, e tantas outras pessoas.

Ver o auditório do centenário colégio marista Santana cheio num feriado de 15 de novembro foi de tirar o fôlego. Um dia inteiro, apesar do calor intenso, de palestras e discussões. Conversar com pessoas orgulhosas do que são, foram, sentem e fazem, como Fernando, Marizeth, que já foi escolhida a mais bela negra do Rio Grande do Sul, e a linda Dandara, faz crer no presente e no futuro. A intervenção final de Dona Elsa, que terminou o ensino médio aos 60 anos de idade e se formou, como ela diz, na faculdade da vida, foi espetacular, uma sabedoria complexa no melhor estilo de Edgar Morin. Uma ode à diversidade e às muitas formas de saber e de crer de que dispomos.

Ouvir Patrícia cantar clássico do cancioneiro negro a capela foi de arrepiar. Que voz! Também foi muito gratificante ouvir as palestras dos professores da Unipampa Paulo Silveira e Marta Messias sobre como se constroem mitos, instituições, visões de mundo e legislações excludentes. Marta destacou um aspecto que sempre me choca, o fato de que uma legislação complementar à Constituição brasileira de 1824 proibiu a escolarização de escravos. O chamado 2º ato oficial considerava que os negros possuíam “moléstias contagiosas” e os excluía da educação formal. Outras legislações posteriores mantiveram restrições à escolarização de escravizados. Que imenso privilégio para os brancos! Além de parasitarem os negros eles se davam cotas de cem por cento no sistema escolar. Uma dívida impagável e que não se quer tentar pagar, salvo lentamente e contra enormes resistências cínicas.

Em meu livro “Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social”, escrevi sobre a abolição: “As escolas prometidas, de modo geral, nunca saíram do papel. O analfabetismo continuou a grassar como a erva daninha que proliferava nas selvagens terras brasileiras, sendo esmagador entre os negros, esses ex-escravos mantidos à margem da sociedade e para os quais a liberdade, embora sempre melhor do que a escravidão, custava a sorrir como dignidade, educação, respeito e perspectivas de desenvolvimento humano. Os vivas de 13 de maio cederiam lugar aos velhos suspiros. Passada a euforia, o racismo se imporia como um ferro em brasa. Os negros sairiam do passado das senzalas para o futuro das favelas”.