Numa visão pessimista, que alguns chamam de realismo por falta de imaginação ou excesso de fatalismo, pouco a destinava à literatura, pois as letras costumam ser destinadas, não por destino, mas por construção histórica, aos homens, principalmente os brancos, ainda que as exceções os protejam do que inventaram quando é necessário sacar um contra-argumento para sustentar um universalismo teórico destinado a simular uma prática de oportunidades iguais inexistente. Nascida na favela do Pendura a Saia, em Belo Horizonte, ela poderia ter sido faxineira ou lavadeira como tantas mulheres da sua família. Não foi. Decidiu desafiar o roteiro.
Conceição Evaristo, aos 71 anos de idade, quer ser a primeira mulher negra a entrar para um clube fundado por um negro, a Academia Brasileira de Letras do genial Machado de Assis, cujas fotografias foram branqueadas possivelmente em nome do imperativo nacional. Descobriu-se há pouco uma fotografia dele numa revista argentina muito mais negro do que nas imagens clássicas conhecidas no Brasil. Será má qualidade da foto estrangeira ou excesso de “qualidade” das imagens brasileiras? A ABL sempre foi um clube da branquitude masculina. Em 295 membros ao longo da sua história, teve 287 homens. Um modesto percentual de 97%. Oito mulheres furaram o bloqueio imposto pelos machos literatos até hoje na gloriosa casa dos intelectuais. Só em 1976, ou seja, ontem, o estatuto foi mudado para permitir a entrada de senhoras. Antes, o machismo era oficial.
O apartheid era racial e de gênero no final do século XX. Ana Maria Machado, Rachel de Queiroz, Dinah Silveira de Queiroz, Cleonice Berardinelli, Rosiska Darcy de Oliveira, Lygia Fagundes Telles, Zélia Gattai e Nélida Piñon integram a galeria das intrusas. Só dois negros entraram na Academia Brasileira de Letras desde a sua fundação em 1897. Machado de Assis, que punha pó de arroz na barba, e Domício Proença Filho, atualmente. Negro retinto nenhum na história. Filhos de escravo, como Lima Barreto e Cruz e Sousa, foram rechaçados. Conceição é candidata. A eleição acontecerá no próximo dia 30 de agosto. Escritora talentosa, Conceição Evaristo enfrentará o cineasta Cacá Diegues e o intelectual, colecionador de documentos, Pedro Corrêa do Lago.
Já registra a história, ou a crônica dos acontecimentos, que, informados da pressão popular pela entrada da primeira negra no cenáculo, não confundir com cenotáfio, palavra que se usa quando se põe o fardão de imortal), os membros da Casa Grande, opa!, da Academia Brasileira de Letras, reagiram com aborrecimento. Lê-se no mundo virtual algo muito real: “Imortais da ABL não estão gostando da mobilização em nome de Conceição Evaristo”. Profissionais da ficção, nem sempre verossímil, algumas vezes ilegível ou inexistente, alguns nem obra de qualquer naipe têm, os atuais donatários do clube estariam dizendo que não admitem pressão e que votam somente por convicção, a convicção de que são imortais nos preconceitos que não têm enfrentado.
Conceição Evaristo escreveu num poema: “A voz de minha bisavó/ecoou criança/nos porões do navio/ecoou lamentos/de uma infância perdida”. A voz da bisneta agora incomoda os salões. Se o racismo não triunfar novamente na ABL, ela resgatará um pouco dessa história roubada sob a proteção das leis mais infames.