Teoria da cabana
Há uma passagem no livro “Casei com um comunista”, de Philip Roth, que me faz pensar, eu que nem sou fã de carteirinha desse que é considerado um dos maiores escritores do nosso tempo. É sobre o fato de que o personagem em torno do qual a narrativa gira tinha um barracão num meio rural para se onde retirava quase como um eremita,
“Como a ideia do barracão de Ira manteve sua força durante tanto tempo? Bem, são as imagens mais antigas – de independência e liberdade, em especial – que sobrevivem obstinadamente, a despeito das alegrias e das porradas da vida em sua plenitude. E a ideia do barracão, afinal de contas, não é de Ira. Tem uma história. Era de Rousseau. Era de Thoreau. O paliativo da cabana primitiva. O lugar onde a gente se despoja de tudo o que não é essencial, o lugar para onde a gente volta – mesmo se acontece de não ser o lugar de onde a gente veio – a fim de se descontaminar e se absolver das lides da vida. O lugar onde a gente se despe, muda de pele, tira todos os uniformes que vestiu e os trajes em que se enfiou, onde a gente se desvencilha de todas as feridas e ressentimentos, do nosso apaziguamento do mundo e do nosso desafio do mundo, da nossa manipulação do mundo e das manobras do mundo sobre nós”. Não é belo?
E tem o final dessa passagem: “O homem que envelhece se afasta para o mato – no pensamento filosófico oriental, abunda esse tema, no pensamento taoísta, hindu, chinês. O ‘habitante da floresta’, o último estágio da caminhada da vida. Pense só naquelas pinturas chinesas, com um velho ao pé da montanha, o velho chinês completamente só ao pé da montanha, retirado da agitação da autobiografia. Ele travou uma vigorosa disputa com a vida; agora, serenado, trava uma disputa com a morte, recolhido à austeridade, a última questão a ser resolvida”.
Na última vez em que encontrei Edgar Morin, então com 95 anos – fará 97 em 8 de julho –, não me contive. Perguntei-lhe: “O senhor pensa na morte?” Ele respondeu sorrindo: “Penso na vida”. A teoria do barracão ou da cabana de Roth não faz pensar na morte, mas nesse lugar mágico, geralmente um lugar da infância, de despojamento, “onde a gente se desvencilha de todas as feridas e ressentimento” e se livra de todos os uniformes vestidos ao longo do tempo. O melhor desse fragmento, porém, é esta expressão: “retirado da agitação da autobiografia”. Neste mundo em que não temos apenas direito a uma autobiografia, com suas emoções e acontecimentos, mas obrigação de construí-la, a tentação da cabana original assume muitas formas.
Pode ser a meditação, o jogo, o retiro espiritual, a arte, o sítio, a escalada de um pico elevado, fazer trilhas, a caminhada diária num parque, a contemplação do mar ou até aqueles enormes fones de ouvido. Eu sou mais tradicional. Me vejo como um velho chinês livre da sua cansativa autobiografia. Um velho chinês palomense entregue à fruição do canto dos pássaros e da brisa da manhã. Um velho chinês embriagado de orvalho a se dizer a cada ano: que venha o futuro.