Uma resenha de Cai a noite sobre Palomas
CAI A NOITE SOBRE PALOMAS
Palomas contém todos os conceitos, todas as referências, todos os ensaios, todas as idéias, toda a antropologia.
Já nas primeiras páginas percebemos que NÃO se trata de um romance sobre as reminiscências da infância e da adolescência de um personagem estereotipado. A começar pelas referências e citações literárias.
MACONDO é mítica e surreal, PALOMAS é pura METAFÍSICA, encantadoramente simples, rompe com o convencionalismo, comove e faz refletir. A narrativa do eterno retorno, do passado sempre presente, apenas uma fotografia na parede, mas como dói. É o desencanto, o sonho e o pesadelo. Ilumina o leitor e faz refletir, vale tudo, menos ficar indiferente.
A tragédia do conhecimento, teoriza um dos muitos personagens de CAI A NOITE SOBRE PALOMAS, passa pela História, Filosofia, Sociologia, Direito, Jornalismo, Economia Informática e Antropologia. Estes personagens (e obviamente o autor) transitam por todas essas áreas do conhecimento com desenvoltura e sem vulgaridade.
Não é uma narrativa enigmática, o leitor vai se deliciar com Vilma, a louca e com Procópio Gonçalves, veterano domador dos confins do pampa. Paulo Bicca lia histórias simples: a mula sem cabeça, o lobisomem e o negrinho do pastoreio. Nos gibis vendidos no trem de passageiros e na pobreza do vilarejo (quando Palomas é delirantemente real) o adolescente vai descobrir a antropologia do cotidiano.
Logo, o alter-ego do autor vai se perguntar: quem busca obsessivamente o conhecimento encontra respostas ou mais e mais perguntas? O intelectual é feliz com sua capacidade de propor idéias ou alguém decepcionado com o niilismo do conhecimento?
Platibanda é amante, intelectual, boêmio, vigarista, leitor de Sartre e Tom Wolfe. Pensador, filósofo do cotidiano e apreciador de Monet.
Em Palomas, na solidão do pampa, Neri desvirgina as duas filhas, em um amor criminoso e incestuoso, entre a culpa e o desejo carnal. É demais para o vilarejo. Tudo acaba em prisão, morte e castigo.
Finalmente um Bicca desencantado e adulto retorna para ver uma Palomas assustadoramente real. E mais uma vez Juremir nos surpreende com um toque delicado de lirismo na narrativa. Como cronista, o autor é irônico, debochado, talentoso. Como romancista, canta sua aldeia e universaliza a emoção. Como diria Caetano, o autor gaúcho é o avesso, do avesso, do avesso.
José A. Welter
Bairro Cristal PoA