Juremir Machado da Silva

Uma revolução esperada e anunciada

Uma revolução esperada e anunciada


Um fragmento de “1930: águas da revolução”.
Que paspalho esse Gil de Almeida!
Luis Aranha resumirá para Hélio Silva a situação de modo peculiar: “Até a cachorrinha da praia sabia da revolução. Apareceu com um laço vermelho no pescoço”.
André Carrazzoni revelará que uma voz feminina disparou ligações telefônicas durante a manhã de 3 de outubro dando a senha: “Olha, o doente piorou muito, seu estado é grave exigindo, por isso, imediata operação. A intervenção cirúrgica vai ser praticada logo à tarde”.
A operação será sangrenta.
Às 15 horas, agências dos Correios estão ocupadas.
Às 16h30, Getúlio é avisado de que está tudo pronto.
Em Belo Horizonte, a tarde cai maravilhosamente.
Em João Pessoa, a companhia do tenente Juraci Magalhães está de serviço. Essa é uma das razões da escolha do 3 de outubro como data da eclosão. Apenas o presidente da Paraíba, Álvaro de Carvalho, tudo ignora.
Na Rua da Praia, em Porto Alegre, às 16h45, uma mulher toda de vermelho caminha com elegância. Parece desfilar numa passarela. Desaparece numa esquina.
Nunca se saberá o seu nome.
Deixa um rastro de perfume.
Às 17h25, Osvaldo Aranha, Flores da Cunha e o capitão Agenor Barcelos Filho, comandante da Guarda Civil, desfecham o ataque à base do general Almeida.
Vargas, com as mãos em concha sobre a barriga, olha o teto do Palácio Piratini. Lembra um pequeno Buda.
Vergara descreverá o começo de tudo com frieza:
“No dia 3 de outubro, às últimas horas da tarde, ouviram-se as primeiras descargas de metralhadora. Estava deflagrada a revolução. Pela manhã, Getúlio Vargas mandou-me chamar e meu deu ordem para que pusesse no manifesto a data de 3 de outubro e fizesse tirar cópias. As primeiras, em número de dez, lhe foram entregues no gabinete presidencial assim que chegou para iniciar as audiências. O dia correu normalmente no palácio até a hora do tiroteio, e iniciado este só me avistei com o presidente depois de encerrado o expediente. Não se alteraram em nada os seus hábitos de trabalho. Após rápidos comentários sobre os acontecimentos e a situação das operações nos redutos principais da cidade, retirou-se para os seus aposentos residenciais. Só tornei a vê-lo no dia seguinte. A distribuição do manifesto ficara a cargo de Osvaldo Aranha. O original não tornei a vê-lo”.
“Havia-o deixado em seu poder e deve estar incorporado ao seu arquivo pessoal. No dia seguinte, vi pela primeira vez Góis Monteiro. Viera à palácio acompanhado de Osvaldo e outros oficiais. Permaneceram longo tempo conferenciando com o presidente. Soube então que se tratara das primeiras providências de mobilização no Estado e de conseguir que Góis Monteiro aceitasse a chefia militar do movimento, mas Góis não se decidiu logo. Por motivos diversos, foi adiando a sua resolução e só a tomou quando começaram a chegar notícias sobre o pronunciamento da maioria dos comandos das guarnições do Rio Grande, Santa Catarina e Paraná, apoiando a revolução. Foi essa hesitação de Góis que retardou a partida de Getúlio Vargas para a frente de luta”.