Juremir Machado da Silva

Uma segunda chance para Bruno?

Paulo Autuori (E) prioriza bola parada em treino do Grêmio
Paulo Autuori (E) prioriza bola parada em treino do Grêmio Foto : Paulo Nunes
 O pouco que sei sobre as coisas aprendi em livros. Muitas vezes, de ficção. É incrível como a literatura, essa deliciosa máquina de mentiras, consegue dizer verdades sobre nós que a razão desconhece. A passagem do tempo me ensina que sei menos do que imaginava sobre quase tudo. Isso me tranquiliza. Há muito para descobrir e mais ainda para relativizar. Já sei o suficiente para entender Sócrates e reconhecer minha ignorância. Quanto mais aprendo, mais sei que não sei. Um dos temas mais fabulosos da existência é o da segunda chance. Todos merecemos uma segunda chance? Em que circunstâncias? O melhor texto que li sobre a segunda chance é o romance Lord Jim, de Joseph Conrad. Com licença que vou passar mais uma semana de férias em São Miguel dos Milagres relendo essa obra-prima. Já volto. Brincadeirinha. Suzanne von Richthofen merece uma segunda chance? O goleiro Bruno, que mandou matar a jovem mãe do seu filho, merece uma segunda chance no futebol?

Sou a favor das segundas chances. Mas há situações que desafiam nossa tolerância. Como dar uma segunda chance para quem mandou executar fria e cruelmente os próprios pais e jamais demonstrou arrependimento? Como dar uma segunda chance a quem ainda não pagou sua pena ? Seis anos são suficientes como punição por um crime tão sórdido contra a vida? Nas discussões sobre condenações sempre aparecem estes aspectos: prender para proteger a sociedade de um indivíduo perigoso; prender para dissuadir outras pessoas de praticarem o mesmo tipo de crime; prender para punir; prender para reeducar. O componente punitivo para alguns, visto como castigo, teria algo de vingança e seria pouco nobre. As pessoas comuns, como eu, recorrem a uma expressão simples:

– Ele não vai pagar pelo que fez?

Queremos que cada um pague por seus atos. O STF, que sempre encontra mil formas de achar o avesso do direito, não se deu o trabalho de encontrar uma razão para manter Bruno preso. Não poderia ter invocado o costumeiro “clamor popular”? Bruno vai voltar aos holofotes. Vai tirar fotos com fãs. Se fizer grandes defesas, será aplaudido e adorado por torcedores. Viverá novamente o seu conto de fadas? Deixará para trás rapidamente o crime que cometeu? Que mensagem passa o Supremo Tribunal Federal? De rigor? De indiferença? O entendimento do ministro que tomou a decisão de libertar Bruno poderia ser outro. Por que não o foi? A lei deve ser cumprida. Não poderia a justiça apressar o julgamento em segunda instância de Bruno? Enquanto espera o goleiro não poderia ter uma segunda chance menos espetacular trabalhando em alguma atividade digna como gari ou servente de pedreiro? Escrevo isso e me sinto constrangido. Haverá preconceito no que estou falando? Não sei.

Conrad, ao final de seu livro magistral, faz o narrador dizer: «E acabou-se. Jim desaparece envolto numa nuvem, de coração inescrutável, esquecido, sem ter obtido o perdão e excessivamente romântico”. O perdão hoje nem seria romântico. Seria apenas oportunista. Um negócio a mais.