Estivemos viajando.
Fomos à Colômbia.
Cartagena de Índias, Ilha de San Andrés e Bogotá.
País bonito, gente simpática e de bom humor.
Mas, como em todo lugar, a humanidade sempre encontra um jeito de mostrar que não é confiável.
Não estou falando da guerrilha e do narcotráfico, que continuam fazendo estragos na vida dos colombianos.
Estou falando de touradas.
Fomos ver uma corrida na Plaza de Toros de Santa Maria, no centro de Bogotá.

Era domingo. Encerramento da temporada.
Alguém me dissera que um toureiro se despediria.
Leitor de Hemingway, que era apaixonado por touradas, não quis perder a ocasião.
Romantizei a despedida do combatente.
Fomos à luta.
Próximo ao local, muita polícia armada até os dentes.
E uma manifestação de defensores dos animais em favor da proibição das touradas na Colômbia.
O prefeito de Bogotá é um dos defensores da abolição das touradas de morte.
Seguimos em frente.
Primeira surpresa: um grupo de brasileiros sobre as escadas íngremes da Plaza de Toros cantando com humor:
– Ai, assim você me mata...
Era a turma do brasileiro Aloísio Mercadante.
O ministro da Educação, em férias, instalou-se na mesma fileira que nós, a 23, uma das mais baratas.

*
Na arena circular, três matadores: Pepe Manrique, Julián Lópes Escobar, conhecido como El Juli, e Alejandro Talavante.
E seis touros, entre os quais Luchador, Concertista e Sembrador.
Na plateia, velhos, jovens, gurias bonitas, senhoras elegantes, torcedores e autoridades.
Ao meu lado, o reitor de duas universidades.

No setor adequado, Alejandro Maldonado, Procurador-Geral da Nação.
Um espetáculo de cores, gritos, hinos e emoção.
Eu que, quando guri, matei boi a marretada, fiquei chocado com o que vi.
Todo mundo já viu uma tourada no cinema ou na televisão.
Presencial é outra coisa. Assustador.
Nojento, pavoroso, asqueroso, infame.
•
Em Palomas, o resumo seria este: um bando de marmanjos covardes "judiando" de um animal condenado à morte.
O touro não tem ponto de fuga.
Cai na arena circular e dali sai morto, arrastado por cavalos ou mulas.
Para escapar vivo, o que raramente acontece, só se não lutar ou der trabalho demais.
A tourada, segundo o folheto promocional da organização, é um ritual de sacrifício.
Em outras palavras, uma cerimônia de abate.
A Plaza de Touros é um abatedouro, um matadouro.
Produz-se "ludicamente" carne para comer.
Abate-se o animal sob os aplausos dos animais da plateia.
Abate-se o animal submetendo-o à tortura lenta, ritual, festejada e repugnante.
*
O touro entra na arena e enfrenta uma quadrilha (esse é o nome que se dá): o matador e seus assistentes.
A luta é tremendamente desigual.
As chances dos touros são mínimas.
Torci por eles. Mesmo não querendo a morte dos idiotas que os maltratavam.
Os auxiliares, uns poltrões, provocam o touro e correm para se abrigar atrás de barreiras dispostas ao longo do círculo. Um, mais gordo, quase entalou na hora de esconder.
O matador dá alguns dribles no touro ainda inteiro para aquecer o jogo e mostrar-se.
Entra o picador, com uma lança longa, numa montaria coberta com uma saia.
Espetáculo medieval, cena de sessão da tarde com morte real.
O picador enfia a lança, com uma lâmina piramidal na ponta, a puya, no dorso do bicho.
Desesperado, o animal ataca a montaria, que, muitas vezes, sofre graves ferimentos.

A partir daí, ferido, o touro baixa a cabeça e caminha para a morte.
•
O matador traz o animal para o centro do círculo.
El Juli foi fenomenal.
Humilhou o touro até agarrá-lo pelo rabo.
Que façanha! Que inutilidade! Que bravata!
A plateia joga rosas, grita olé a cada finta, exulta.
O toureiro encontra tempo para vir até junto do público exibir-se diante das autoridades.
O bicho só persegue a muleta, o pano vermelho em movimento diante dos seus olhos.
Mesmo quando o homem afasta-se, de costas, ele fica imobilizado.
O toureiro pode aproximar-se e colocar a capa para trás, ficando olho no olho com o touro, que só avança novamente quando a capa é outra vez agitada diante dos seus olhos certamente sombreados pela morte.
•
Os bandarilheiros entram em cena.
Cada homem carrega dois ferros, chamados de farpas, duas lâminas de cinco a sete centímetros com um enfeite de papel de seda, uma espécie de cabo branco ou colorido com um arpão na ponta.
Avançam para o touro na corrida e fincam nos pontos já feridos as tais farpas.
Os músculos do bicho vão sendo rasgados.
A parte branca das bandarilhas fica feito uma bisnaga suja de sangue pendendo do dorso do touro.
Se uma farpa cai, a massa vaia.
O sangue brota.
O touro sofre.

*
A tourada é o prazer humano com o sofrimento do animal.
Um espetáculo bárbaro para gosto de sádicos.
A mitologia da coisa fala em vitória da inteligência sobre a força bruta.
É o triunfo da força organizada contra uma força quase indefesa.
O touro não sabe trapacear.
Poderia fingir um ataque ao pano e, no impulso, desviar-se para o homem.
Não o faz.
Os organizadores garantem que pior é o que acontece nos matadouros industriais.
Pode ser. Mas, ao menos, não vamos lá para aplaudir.
A tourada é um jogo grotesco.
O touro é o bobo da corte.
Sai do corredor da morte para o seu fim em 20 minutos.
Alguém exclamou quando o segundo touro entrou na arena: "Vai morrer!"
Dito e feito.
Alguns minutos depois, o touro era uma enorme posta de carne arrastada para fora da arena.
Deixa rastro de sangue no chão.
Sai sem solenidade nem pompa.

Apenas uma carcaça produzida sob a vibração trabal dos animais irracionais da plateia.
•
Se a plateia gosta muito do desempenho de um toureiro, agita panos brancos.
O juiz pode conceder ao toureiro o direito de cortar uma orelha do touro.
Ou as duas.
Ou as duas e o rabo.
Num caso desses, o triunfo é absoluto.
O toureiro sai carregado nos ombros do público.
Sai como herói.
Matou o touro que dificilmente poderia matá-lo.
Ao menor perigo, entram em cenas os parceiros de quadrilha.
•Os toureiros, com suas meias rosas, andam empinados, garbosos, orgulhosos, cheios de empáfia.
Sorriem felizes.
Ava Gardner gostava de dar para toureiros.
García Lorca também.
Eles parecem inumanos, monstros de coragem.
São monstros de crueldade.
Domingo, 19 de fevereiro de 2012, conheci três canalhas: Pepe Manrique, El Juli e Alejandro Talavante, que precisou enfiar sua espada três vezes, até que ela desapareceu por inteiro, para matar o seu desafiado.
Um herói da sordidez medieval em tempos hipermodernos.
*
Depois de três touros, batemos em retirada.
Na saída, perguntei ao ministro Mercadante se estava gostando.
Disse que sim, que já tinha visto touradas no Equador, etc.
Não o culpo. Nem o condeno.
Eu também estava lá.
*
Vi a palavra vomitório no alto de um portão.
Em espanhol, indica o local com os assentos para o público.
Cheguei a pensar que era para quem, como eu, estava com nojo.
Ninguém estava com ânsia do vômito.
Queriam mais. Mais sangue, mais tortura, mais sofrimento.
Chega um momento em que o bicho começa a arfar.
Todo o seu ventre treme.
Não ouvi, porém, um só mugido.
Quando cai, um homem enfia-lhe uma faca no pescoço.
O Procurador-Geral da Nação declarou na saída: "As touradas são atos civilizadores". Uau!
Alegou que se trata de uma tradição cultural e que devem ser preservadas.
É o relativismo antropológico barato que viceja por aí.
Segundo ele, é um combate entre razão e força bruta, com vitória da razão.
Com certeza ele não pensa.
•
A Colômbia não está sozinha. México, Espanha, Portugal, França e outros países gostam dessa maldade.
Nunca vi nada mais hediondo.
Só, talvez, rinha de galo.
O Brasil também tem as suas maldades, da farra do boi aos rodeios.
Uma parte considerável da humanidade adora violência.
E sempre encontra discursos para justificá-la: ritual, disciplina, catarse, o escambau.
É infâmia mesmo.
Pura estupidez.
A infâmia que o fanfarrão do Hemingway tanto gostava.
Artistas afetados adoram um exotismo.
Não sei se algum toureiro se despediu no último domingo, em Bogotá.
Eu, sim.
Pobres touros, tão selvagens, tão pesados, tão brutais.
Nada, porém, que os comparece com seus matadores.
Ainda estou tentando tirar do corpo a sensação de morte.