Variantes, sentimentos, desespero

Variantes, sentimentos, desespero

Ômicron e outros choques

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      Sei que falar em desespero não parece crível. Tem algo de excessivamente dramático. E todo drama será considerado mimimi em tempos de egoísmo brutal. Mas eu me desespero, sim, na solidão da manhã, porque meu sangue ainda ferve como quando sonhava. Eu me desespero ao ler sobre a variante ômicron. O vírus continuará tendo mutações enquanto não for barrado pela grande arma que temos à mão: a vacina. Eu me desespero por saber que milhões de pessoas não se vacinam por medo, ignorância, ideologia, burrice. Eu me desespero ao ver que se confunde liberdade individual com uma questão de risco coletivo. Que liberdade posso ter quando a minha escolha põe em risco a vida dos outros? Se tem algo que me coloca em desespero é saber que europeus e americanos ricos recusam a vacina enquanto africanos pobres morrem por não ter como se imunizar.

      Eu me desespero ao ver que a racionalidade morre a cada dia, asfixiada por sofismas, notícias falsas, teimosia, obscurantismo, projetos pessoais que ignoram o interesse público. Diante dos números de internações e de mortes que desabam em países com altas taxas de vacinação como duvidar da eficácia dos imunizantes? Quantos mortos pelo vírus? Quantos mortos pelas vacinas? O coranavírus já matou mais na América do Sul que toda a Guerra do Paraguai, conflito que ensanguentou nosso canto do continente no século XIX. Eu me desespero ao ver a indiferença de alguns, a despreocupação de muitos, o fatalismo de outros tantos, o escárnio com a ciência, a politização rasteira da doença.

      Na insônia de certas noites eu me desespero por saber que os países ricos poderiam rapidamente produzir e distribuir vacinas para o mundo inteiro. A isso se chama de esforço de guerra. No caso, uma guerra pela vida. Outros nomes para essa atitude são solidariedade e defesa do próprio interesse. Por que não se faz? Por estupidez e ganância certamente. Na ânsia de ganhar tudo, ou muito, pode-se perder a vida. Eu me desespero ao ler que muitos se infectam em festas voltadas para esse objetivo de maneira a escapar da vacina. É uma roleta mortal. Já há mortos entre esses militantes extremistas contrários às vacinas.

      Eu me desespero por não ter a força dos que se sentem imortais nem o vitalismo dos que não se assustam com qualquer ameaça. Eu me desespero por amar a vida, a minha e a dos outros, especialmente daqueles que amo, mas também a dos que não conheço, pois a vida é sagrada, o bem mais precioso, aquele que, tirado, não pode ser restituído. Quantos amigos perdidos em dois anos! Eu me desespero vendo a Europa viver cada verão como se tudo estivesse superado e cada começo de inverno como um novo pesadelo. Não adianta vacinar a Inglaterra inteira se outros país não alcançam vinte por cento de imunizados. Esse é o recado da globalização.

      Ainda dá tempo de frear o sempre pior? Tudo depende de quem manda no mundo. Enquanto a humanidade não abraçar a vacinação como única saída possível, ou provável, só poderemos nos desesperar solitariamente. Alivia saber que os sábios brasileiros se vacinam. Não somos bobos.


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Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895