Juremir Machado da Silva

Veja o que a Veja dá

Veja o que a Veja dá

Eu aprendo muito lendo a revista Veja. Em geral, aprendo o que não se deveria fazer em jornalismo. Mas aprendo também que guerra é guerra e cada um deve cuidar da própria pele, especialmente quem está no mato sem holofote. Cada vez que o editor-chefe da Veja, Mario Sabino, publica um livro de ficção, ganha uma página na sua revista. Torna-se leitura obrigatória em consultório de dentista. Faz sentido. Tem sempre um professor para fazer o papel de bajulador de plantão. Desta vez, com o lançamento de “A boca da verdade”, Alcir Pécora assinou o artigo. Saiu-se bem. Puxou o saco de maneira genérica ao falar do conjunto da obra do resenhado: “São títulos interessantes que revelam um temperamento literário bem acima do cipoal anódino que tem travado o gênero”.
Sempre que alguém usa a palavra “interessante” para definir alguma coisa, podem estar certos, ficou numa saia justa e não encontrou algo mais interessante para dizer. Para dar credibilidade ao texto, Pécora esboçou uma ressalva: “A inteligência da abordagem e as questões relevantes dos contos têm por vezes, como contrapasso, certo aspecto programático, ilustrativo, que torna os contos obedientes à demonstração conceitual. Nada contra o conceito, claro. Mas para que ele obtenha eficácia literária é preciso que entregue destemidamente à narrativa as rédeas de seu andamento”. Funciona. Mas é a típica observação besta de crítico literário: nenhuma narrativa anda sozinha. Essa conversa de que o personagem assume seu destino é papo furado. É o autor quem comanda.
Eu já elogiei um livro de Sabino. Ele não é mau escritor. Até é bom. Não o suficiente para ter espaço garantido numa revista metida a referência que ignora a maioria, adora dar lições de estética a todo mundo e denuncia os jogos de compadre na política. Pensando bem, acho que o elogiei para ver se ele me dava espaço na Veja. Não funcionou. Ele não precisa de mim. Tem o Pécora. Eu não preciso dele. Nem do Pécora. Tenho a mim. Guerra é guerra, dizia o resenhista, antes de virar autor. Veja é genuinamente brasileira: aos amigos, tudo. Mario Sabido está com tudo.
Sabino encontra quem o elogie na Veja. Eu me autoelogio aqui. Sou o resultado do método Sabino. Quem não tem Pécora, caça com as próprias mãos. Nestes meus 30 anos de guerra fora de Grande Palomas, “Getúlio” e “Solo” foram o que fiz de melhor. Um escritor que acredite no seu taco deve ter a coragem de defender sua obra. Ou de conseguir um Pécora que a defenda. “Solo” é uma sátira. Um deboche radical. É o CQC da literatura. Melhor, é CQC e Casseta juntos. Desmonta os livros esotéricos e de autoajuda. Parodia Paulo Coelho e Dan Brown. Ridiculariza a literatura nacional de frases tortas que ganha prêmios como o Cágado. Espanca a mídia inteira. O personagem é discípulo do filósofo Louro José. Maltrata os Pécora que elogiam os Sabino para ficar bem nas Vejas. Aí eu paro e pergunto: será por isso que a mídia nacional ignorou a existência de “Solo”? Imagino a resposta. É pior. Afinal, Sabido é sabido.