Velha crônica capilar
Cortar os cabelos é um dos maiores dramas de um homem de quarenta anos, heterossexual e “normalóide”, desses que gostam de falar de mulher e de futebol e de encher a retaguarda de Brahmas. Não se trata do avanço da calvície, que já faz um estrago danado, mas do ato em si de comparecer ao local adequado para desfrutar desse tipo de serviço. Quando começa a aproximar-se a data fatídica, o sofrimento aumenta, o sujeito fica com pressão alta, angustiado, irritadiço. Outro dia, na churrascaria Barranco, escutei uma conversa que só confirmou a validade da minha hipótese: três homens confessavam a duas mulheres espantadas o pavor sentido na hora de ir cortar o cabelo.
São cenas trivais do cotidiano da hiper-modernidade (era da união entre a tecnologia de ponta e uma ponta de nostalgia pelo que nunca mais será). Cenas como aquela do Shopping Rio-Sul, no Rio de Janeiro: uma linda garotinha, de uns cinco anos, deslumbrada com as vitrines, feliz da vida, moderna e quase independente; e duas mulheres (a mãe e uma tia?) arrastando um garotinho, da mesma idade, em prantos — esperneando, recusando-se a entrar no “matadouro” — para dentro do shopping. Deve ser isso que os especialistas chamam de estudos de “gênero”. Acho.
O problema masculino do corte de cabelo é do mesmo gênero, se me permitem a redundância ou a ambigüidade. Trata-se de um nicho de clientela muito mal servido. Só existem duas modalidades no mercado: a tradicional e a pós-tradicional. Na tradicional, o sujeito vai a um barbeiro, daqueles que fazem jogo do bicho, são barrigudos e suados, usam Água Velva e cortam à escovinha, tendo como parâmetros masculinos de beleza capilar os heróis da FEB. Até se fala de mulher e de futebol, mas os nomes citados são os da Greta Garbo, da Dercy Furtado, da jovem Hebe Camargo e da Marlene Dietrich. Craque ainda é o Garrincha. Conhece-se de cor a escalação campeã do Renner de 1954.
Na modalidade pós-tradicional, essa que provoca ainda mais horror nos heterossexuais “normalóides”, o cara vai a um centro de estética capilar e passa por uma série atroz de procedimentos, da lavagem à secagem, sendo, a cada momento, torturado com perguntas para as quais nem sequer imagina a resposta, a começar pela assustadora “como vai ser?”. Ao ouvir isso, o homem comum, bebedor de cerveja e torcedor dos clubes mais conhecidos do Brasil, sente vontade de sumir, de não estar ali, de escapar pelo ralo. É tarde. Vem o segundo torpedo: “Que tal uma ampola?” Uma o quê? “Uma ampola?” Como assim uma ampola? Injeção? Droga? “Uma ampola, querido, revitalizante, para dar brilho, consistência”, o escambau. Ah, uma ampola. OK.
Mal o sujeito assimila o golpe, vem outro: “E uma vitamina?” Dá uma vontade de ir embora. De correr para o barbeiro, não fossem aqueles calendários de escola dominical que figuram nas paredes de qualquer barbearia e afugentam até mesmo bebedores de Brahma com um limitado senso estético. Não bastasse isso — aqui não vai nenhum preconceito, apenas a defesa do interesse de um tipo convencional de cliente — o profissional, às vezes, como em qualquer atividade, claro, um metrossexual, um pan-sexual, um trans-sexual, encontrei até um animista sexual, tudo menos heterossexual, conversa o tempo todo sobre chapinha, escova, máscara, lipoaspiração, bofes e outros termos do gênero. Na barbearia, não se vai além do emplastro Sabiá.
É jogo duro. As categorias hipermodernas, como o nome indica, costumam ser mais reais que o real. Os assuntos seguem a mesma linha de raciocínio. Ao menos do ponto de vista de um machista ligth e interessado apenas em ter os cabelos bem cortados sem ter de abrir a boca. Pior mesmo é fato de que o profissional olha com escancarado desdém para a “chatice” do cliente tão convencional, em todos os sentidos, e, um pouco mais, dispensaria a pessoa. Já vi cliente ser maltratado, xingado e menosprezado por só querer cortar o cabelo e não ter resposta pronta para o “como vai ser?” Eu mesmo me limito a um tímido “bem curtinho” que, em geral, faz o cabeleireiro tremer de raiva de mim e me largar com um penacho na testa. Um até me disse: “Se não for para fazer uma intervenção, estou fora!”
Fora, fiquei eu. Quando a gente pensa que está terminando o sufoco, vem a pergunta: “Vai gel?” Não, não vai. Pelo espelho, vê-se o muxoxo do prestador de serviço: “Com gel ficaria bem melhorzinho”. Vencida a maratona, passa-se no caixa e vem a bomba: uma fortuna. Dez vezes mais do que na barbearia, por ter lavado, secado, vitaminado, “ampolado” e, claro, pelo ambiente. Paga-se rápido para ir embora ainda mais rápido. Não dá. É preciso atualizar o (cadastro, prontuário, ficha?) no computador. Alguém consegue me explicar para que serve um cadastro no computador do cortador de cabelos?
A última vez que cortei o cabelo sem sofrimento nem pânico foi em Montevidéu. Entrei e saí sem falar com ninguém. Não havia computador nem ampola. Nem fotos do Peñarol nas paredes. Não era uma barbearia nem um centro de estética capilar. Nem salão nem instituto. Nem pós nem hipermoderno. Paguei um preço médio. Ao refletir sobre essa tragédia da cultura contemporânea, entro em crise: definitivamente, virada a esquina dos 40 anos, não passo de um tipo mediano.