Velha crônica de passarinho
Um passarinho pousou na minha janela. Enfim. Era um passarinho verde. Eu vi o passarinho verde. De novo. Ele cantava baixo, feito um João Gilberto alado, sem desafinar. Então, eu decidi: agora vai. Serei, finalmente, um cronista ornitológico. Na última vez que tentei, lembram?, terminou em fracasso. Escrever sobre passarinhos exige um talento especial. Não é tarefa simples para quem estudou sociologia. O passarinho verde parecia rir de mim. Larguei o computador sobre a mesa e fui sentar no sofá para contemplar mais confortavelmente o bichinho. Ele pulou sobre o teclado e começou a bicar as letras. Tenho certeza de que tentava me ensinar a escrever sobre a sua classe.
Resolvi observar atentamente o passarinho. Ele saltitava. Aquilo me arrepiou. Ele não parecia de modo algum preocupado com o bolsa-família ou com os atrasos nos aeroportos. Invejei aquela passarinho. Olhei bem para ele. Ele me viu. Ficou, por alguns segundos, absorto. As suas penas verdes brilharam quando um raio de sol se infiltrou pela janela. Fiquei emocionado. Anotei, numa velha agenda, duas frases para usar depois, quando o passarinho liberasse o computador. Eram duas frases ingênuas, mas que me tocaram o fundo da alma: eu vi o passarinho verde. Eu vi o raio de sol. Uma frase puxa a outra e me vi escrevendo: eu vi o passarinho verde sob o raio de sol. Como era belo o passarinho verde sob o dourado do raiozinho de sol!
Nunca escrevi tão bem. Eu adoraria só escrever sobre passarinhos e a chegada da primavera. Se conseguisse, juntaria as crônicas e faria uma coletânea com um titulo evocativo: “Passarinho verde”. Ter visto o passarinho verde me encheu de idéias e de otimismo. Tive uma visão, um sonho vermelho: o Inter goleava o Barcelona. Alimentei uma utopia: não havia mais corrupção no Brasil. Nem crianças abandonadas. Caí, aos poucos, numa doce pieguice. Eu sou piegas. Choro até em cena romântica da novela das oito. Se fico longe de Porto Alegre por muito tempo, choro ao avistar o Laçador. Quando a minha mulher chegou em casa, horas depois, o passarinho verde já havia partido, mas eu continuava com o olhar perdido no horizonte. Intrigada, ela me perguntou: “Foste picado pela mosca azul da felicidade?” Eu sorri. Candidamente. Nunca fui tão verdadeiro ao responder: eu vi o passarinho verde. Ele também me viu.