Velha entrevista com Mario Vargas Llosa (I)
Mario Vargas Llosa
" Para a esquerda, um liberal é um monstro"
O escritor peruano diz que não é um reacionário, pois acredita na mudança e não pretente voltar ao passado. Em sua opinião, as formas stalinistas continuam a imperar no debate intelectual.
Mario Vargas Llosa olha o mar. Chove sobre o Adriático. O escritor peruano, nascido em Arequipa, em 1936, instala-se em uma confortável poltrona do Hotel Exelcior, no Lido de Veneza, e, estimulado pelas perguntas, deixa-se levar pelo entusiasmo, pela paixão e pelas memórias. O Brasil evoca-lhe Machado de Assis, uma nova democracia e a música. Fulminante nas críticas, o autor de" A Casa Verde", "Tia Julia e o Escrevinhador" e "Conversa na Catedral", entre outras extraordinárias obras da literatura do século 20, ama a precisão das palavras e o equilíbrio dos juízos de valor. Intelectual, político, ensaísta e ficcionista, a sociedade é o seu objeto. Nesta entrevista, Llosa analisa a situação atual da literatura latino-americana, clama pelo fim do regime de Fidel Castro, denuncia o raquitismo intelectual, declara a sua paixão pelo cinema e lamenta a hegemonia da televisão. Llosa olha a chuva enquanto a sua inteligência ferina trabalha.
JMS - Margherita Buy, sua colega de júri no recente Festival de Veneza, declarou nunca ter lido um livro de Vargas Llosa mas, mesmo assim, considerar absurdo que alguém, como foi o caso de Umberto Curi, diretor do Instituto Gramsci, chame-o de reacionário. Choca-lhe que imaginem haver uma relação entre as suas idéias políticas e a ficção ?
Mario Vargas Llosa - Margherita Buy defendeu-me, mas a maneira de colocar a questão de fato sugere que o reacionarismo, se existisse, decorreria da obra ou apareceria nela. Sejamos claros: as idéias políticas fazem parte de mim, do homem que escreve e cria. Eu gero o meu mundo literário com paixões, intuição, amores, projetos e posturas. Há, entretanto, uma irracionalidade - a passionalidade - que transborda o limite do controle intelectual na ficção. O romance existe para captar a profundidade da existência e liberar as contradições próprias ao ser humano. Quando quero, em contrapartida, sustentar pressupostos políticos, o que me acontece com freqüência, escrevo um ensaio ou um artigo para jornal. Não sejamos, porém, ingênuos: um romance carrega uma parte da subjetividade do autor, embora não possamos reduzir toda a ficção à autobiografia política. A literatura ficcional funda um campo de experiências que ultapassa o campo de experiências que ultrapassa o campo ideológico.
JMS - A política parece obcecá-lo. A derrota nas eleições presidenciais peruanas, em 1990, representou um corte redical em relação ao compromisso do escritor com o social ?
Llosa - A política profissional para mim está encerrada. Nunca mais disputarei um cargo eletivo, pois já provei que não sou de fato um político de ofício. Continuarei a agir politicamente como intelectual, defendendo as liberdades fundamentais, ajudando a produzir as discussões necessárias à aceleração das reformas imprescindíveis em nossas nações dilaceradas pela miséria e, mais do que tudo, permanecerei um ensaísta sem medo das polêmicas e disposto a lutar pela Justiça. A América Latina terá de passar por uma revolução pacífica que altere a fisionomia atual. Apenas a democracia permitirá a integração dos imensos contigentes de excluídos do Terceiro Mundo. Eu não me cansarei de denunciar os ditadores e de pedir transparência e liberdade.
JMS - O Peru de Fujimori está muito longe da revolução pacífica sonhada pelo senhor ?
Llosa - Tenho criticado duramente o regime de Fujimori desde o golpe de Estado que chamou de volta os militares e matou a incipiente democracia peruana. Fujimori retomou a tradição autoritária, destruiu o esforço no sentido da liberdade, caiu em um regime político primitivo e afundou o Peru no atraso. O Brasil me vem sempre à mente quando penso no Peru. A crise brasileira recente foi altamente benéfica, pois do combate à corrupção resultou o reforço da democracia e da participação popular nas decisões. Na América Latina, a democracia engatinha, frágil e exposta a todos os riscos, exigindo cuidado e espíritos lúcidos. O problema é que sofremos do complexo da terra arrasada: queremos começar do zero, eliminando o passado e apostando num mito adâmico. Enquanto não aprendermos a conservar as nossas conquistas democráticas, ficaremos ao alcance dos aventureiros e dos golpistas. O caminho é longo.
JMS - Ser chamado de reacionário fere o admirado romancista Varga Llosa ?
Llosa - Não sou reacionário, pois acredito na mudança e não pretendo voltar ao passado. Defendo reformas liberais profundas. Os intelectuais de esquerda, vítimas do raquitismo do pensamento, procuram desqualificar os adversários pela excomunhão: um liberal é um monstro. Mágica maneira de matar o interlicutor. As formas stalinistas continuam a imperar no debate intelectual mesmo em países cultos como a Itália. A democracia representa a fiscalização do poder, a luta contra a corrupção, a liberdade, a alternância e o conflito negociado no quadro institutional. A palavra liberal abriga sentidos diversos. No meu caso, o liberalismo implica a defesa de um Estado participante e aberto, do indivíduo livre e da cultura da responsabilidade e da criação.