Velha entrevista com Mario Vargas Llosa (II)
JMS - O raquitismo intelectual tem levado à indulgência em relação a Fidel Castro ?
Llosa - Eu espero que o regime de Fidel Castro chegue ao fim rapidamente. Trata-se de um anacronismo histórico, de um modelo esgotado em outros lugares e incrivelmente mantido em Cuba para desespero da população local. Fidel está liquidado e as ameaças que fez aos Estados Unidos de abrir as portas da ilha a todos os que quiserem partir revelam o absurdo de sua ditadura : quando todo um povo deseja fugir é porque o sistema político e econômico fracassou. Os intelectuais latino-americanos chamavam Pinochet de ditador, com razão, e eu mesmo combati sem tréguas a ditadura chilena. O mesmo tratamento deve ser destinado a Cuba e a Fidel. Não podemos admitir dois pesos e duas medidas para a abordagem das ditaduras de esquerda e de direita. Os intelectuais, pelo silêncio, tornaram-se cúmplices do totalitarismo castrista.
JMS - Literatura. Quando se é autor de uma obra estupenda, que inclui livros geniais como Conversa na Catedral, ganhar o Nobel torna-se uma obsessão ?
Llosa - De jeito nenhum. Um escritor nunca deve pensar em prêmios ou recompensas para não se condicionar pelos imperativos dos que escolhem os premiados. A obra deve nascer da liberdade absoluta e do compromisso exclusivo com a arte. Não sou candidato ao Nobel e a nenhum outro título. Trabalho pela espontaneidade, pelo prazer e pelo valor da literatura na sociedade. O homem constrói-se pela arte. Não o imagino sem a ficção.
JMS - A ficção latino-americana viveu alguns anos extraordinários, fazendo figura de locomotiva mundial. O boom criativo passou ?
Llosa - Creio que o apogeu aconteceu entre os anos 60 e 70. O impacto passou. Não acredito porém que a criatividade tenha-se esgotado. É verdade que a Europa Central, até em função das convulsões históricas, ocupou o terreno de destaque que foi da América Latina. Acompanho de longe o que se escreve hoje na América Latina, pois vivo na Inglaterra e tenho as leituras condicionadas pelo trabalho, mas sou admirador de Isabel Allende. O chileno Luiz Sepúlveda também é excelente. Há muita coisa boa na linha aberta por Garcia Márquez. A criatividade na invenção de novas formas é o nosso forte. Sabemos revolucionar os processos narrativos. A Espanha é um país, voltado à Europa, que me impressiona com a potência romanesca atual. A literatura é uma fonte inesgotável que frusta as profecias pessimistas e ridiculariza as teorias literárias sobre a morte dos gêneros.
JMS - Alguns críticos franceses retomaram, recentemente, a idéia de que o romance chegou ao fim no sentido da possibilidade de renovação formal e descoberta de novos conteúdos. Bobagem ?
Llosa - Quando me falam da morte do romance, penso sempre em uma frase do diário dos irmãos Goucourt que, como sabemos, viveram no século 19. Pois eles asseguravam que o romance estava, já na época deles, morto. Que falta de visão. Que ausência de perspectiva. Quanta incapacidade para a compreensão do potencial criativo dos artistas. Tais teorias decorrem de análises lógicas e lineares que deixam de lado o espetacular do processo criativo : o inesperado, o desconhecido, o imprevisível, o que ainda não está dado. O século 19 foi o século por excelência do romance. Ah, um Machado de Assis, cuja ironia me apaixona. Na Inglaterra de hoje, contrariando os sábios Goncourt, como em muitos outros lugares, a produção de romances é exuberante e original.
JMS - A imagem não representa um perigo para a escrita ?
Llosa - Faço parte de uma geração que se formou através dos livros e do cinema. Descobrimos o mundo pela literatura e pelos filmes. Aprendemos a ser críticos graças à ficção. Lembro com nostalgia dessa época. A televisão está matando - substituindo - o cinema e reduzindo o tempo de leitura. Eu gosto da sala escura, da tela grande, do ritual da ida ao cinema, do encontro com outros cinéfilos, da troca de impressões, da partilha de sentimentos e da tradição da crítica. O inevitável já aconteceu. A televisão impôs-se. O pior talvez ainda esteja por vir. Mas tudo dependerá do trabalho que realizarmos.
JMS - A literatura e a arte em geral são vítimas também do renascimento do nacionalismo. Um festival como o de Veneza serve à universalização da cultura ?
Llosa - O nacionalismo é o vírus da arte. Há pouco travei uma polêmica com Régis Débray a respeito disso. Os franceses, em nome da luta contra a hegemonia cultural americana, resvalam com facilidade para o nacionalismo. Meu último livro, por exemplo, Lituma nos Andes (lançado no Brasil pela Companhia das Letras). O fato de uma obra abordar um assunto balizado pela geografia não pode significar jamais o elogio do etnocentrismo. Os festivais de cinema - e Veneza não seria a exceção - favorecem o contato intercultural e divulgam as preocupações e formas estéticas do mundo inteiro. A interação permite o reconhecimento, o respeito, a descoberta do novo e o entrecruzamento. Veneza faz parte do patrimônio democrático da humanidade por ser uma mostra aberta à polissemia.