Juremir Machado da Silva

Velhas entrevistas: Lefort e o liberalismo

Claude Lefort, o totalitarismo acabou


Dono de uma vasta cultura, o filósofo francês Claude Lefort, nascido em 1924, profundo conhecedor do marxismo, crítico do dogmatismo e um dos mais implacáveis analistas do totalitarismo comunista, continua atento às transformações políticas do mundo contemporâneo. Em seu gabinete na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, ele confirmou a sua ida a Porto Alegre em abril de 1994, a convite da Secretaria Municipal da Cultura/Usina do Gasômetro, para uma conferência sobre a situação atual do leste europeu e os impasses do liberalismo.


Para ele, o totalitarismo chegou ao fim, ainda que novas e inquietantes formas de dominação estejam em cena. Defensor da democracia como um processo, Lefort analisa o papel da participação popular, da imaginação, dos novos nacionalismos, dos meios de comunicação de massa e dos intelectuais. Uma aula de lucidez, de análise corrosiva, de crítica implacável e de reflexão sem preconceitos. Claude Lefort habitou-se, ao longo de sua trajetória, a pensar na plenitude da autonomia.



Em duas ocasiões, na edição e na reedição de Um Homem a Mais , sobre Soljenitsyn, em 1976 e em 1986, o senhor se perguntou o que era saber em relação ao totalitarismo. Qual a resposta hoje, ao retornar de Moscou?


Claude Lefort - A população da Rússia tem consciência de que o comunismo era um regime ditatorial baseado já não mais no terror mas no medo: da polícia, da repressão e do poder. A fé havia terminado. Existe uma vontade de compreender como o comunismo se formou até desembocar no reino de Stalin e no apoio recebido de uma vasta camada social? Não. Há, antes, um desejo de não olhar para trás e de esquecer o passado, com exceção da pequena fatia que continua comunista, formada de pessoas mais velhas. Já a extrema-direita nacionalista vive de slogans. Para a maioria é um incômodo falar de um sistema que se tornou inviável. O comunismo reinou por 70 anos e confunde-se com a história da Rússia moderna, mas os referenciais desapareceram. A revolução de 1917 é percebida como a origem de uma catástrofe e, portanto, a idéia mesma de revolução está comprometida, com a utopia do homem novo, do mundo novo, da ruptura ideal com o passado. Apenas uma minoria dispõe-se a falar e a demonstrar que o comunismo foi tão mortífero quanto o fascismo.


Com soljenitsyn o senhor questionou também a culpa de Marx. A questão está resolvida? A responsabilidade pertence ao teórico, aos efeitos perversos da teoria ou a sua aplicação incorreta?


Claude Lefort - Seria absurdo culpar um pensador com uma obra complexa, filosófica, política e econômica, pelas decisões de autoridade tomadas frente a acontecimentos históricos. Assim como Nietzsche não pode ser responsabilizado pelo nazismo, Marx não pode ser acusado pelo que o ultrapassa. A obra de Marx ainda é fecunda, crítica e esclarecedora. E também contraditória. O leninismo é uma simplificação extraordinária de Marx e estou convencido de que este, se testemunhasse os fatos de hoje, teria uma outra concepção do futuro.


A teoria marxista perdeu a validade para as transformações que possam ser necessárias?


Claude Lefort - Certamente. A teoria carrega a idéia de que uma sociedade sem classe é possível, pressupõe uma sociedade homogênea, com o desaparecimento das dimensões jurídica e política, e tudo isso é utópico. A noção de revolução como ruptura radical na História é falsa; jamais isso aconteceu. Há sempre mudança e retomada do passado através de novas instituições. O corte no tempo não acontece. A teoria marxista não resiste. Em contrapartida, a crítica marxista do liberalismo selvagem contínua válida.


Quais os horizontes possíveis? O mundo está mergulhando em um novo tipo de totalitarismo ou prestes a encontrar, em meio às dificuldades, as virtudes das soluções pragmáticas?


Claude Lefort - Hannah Arendt dizia, depois de estudar as origens do totalitarismo, que possivelmente existiriam novas e piores formas políticas. Esses julgamentos não podem ser sustentados e remetem ao impressionismo. O totalitarismo acabou. Não creio que se possa encontrar uma ideologia universalista que defenda um modelo de sociedade a ser aceito por todos os povos da terra. O comunismo foi uma força de atração no mundo inteiro e representou a possibilidade de uma sociedade diferente. Esse modelo não pode ser retomado. Hoje, temos inquietantes modalidades de dominação, mas faz-se confusão ao ligar o projeto de uma Grande Sérvia a uma nova forma de totalitarismo: trata-se do nacionalismo exacerbado através do qual aparece a intransigência do comunismo, mas é algo que não se poderá exportar.


A Comunidade Européia representa uma proteção tribal contra o Japão, os Estados Unidos, o Terceiro Mundo e mesmo a Alemanha ou uma a solução de solidariedade pós-comunismo e pós-Estado-nação?


Claude Lefort - Há uma resistência nacional à construção da Europa; não se trata somente de um fenômeno reacionário. Seria perigoso adotar medidas uniformizadoras. As diferenças nacionais situam-se no curso da história e constituem as relações entre os povos. Não são meros particularismos pejorativos. Dentro das nações existe a procura, pelas províncias, da diversidade. Em nome da democracia é importante preservar todos os sinais da pluralidade cultural. Mas a Europa é necessária, não somente por razões econômicas. É formidável pensar essa mudança, fundadora da paz através de laços indestrutíveis. Na Europa do Leste, entretanto, multiplicam-se as vagas de nacionalismo. O fenômeno é ambíguo e não se pode desprezar as aspirações das pequenas nações que se julgam oprimidas ao longo do processo de sua formação cultural. Entre a democracia e os novos nacionalismos aparecem, inegavelmente, formidáveis contradições. A democracia é a divergência. Os governos do novo nacionalismo aproveitam para se livrar dos opositores. Entre a democracia e a idéia de nação há um laço de intimidade, mas qualquer coisa, na nação, escapa ao conflito e deriva para a separação: a divergência vira traição.


Todos os acontecimentos do século XX conseguiram demonstrar que a democracia é o melhor dos regimes. Ainda é preciso buscar um paraíso?


Claude Lefort - Buscar outro regime ou aprimorar a democracia? A democracia estará sempre em construção. Os democratas da Rússia, adversários do comunismo, não sabem o que significa o respeito à lei e o senso de responsabilidade perante o outro. Eles não sabem que é possível coexistir, sem pensar em eliminação, com os defensores de outras idéias. É uma questão de costume. A democracia não está instituída na Rússia, apesar do parlamento e de uma certa liberdade de expressão. A França é uma velha democracia, mas, diante de uma crise econômica intensa, tudo deve ser inventado para combater os fenômenos de exclusão social dos desempregados e dos imigrantes. A garantia das instituições não estabelece automaticamente o reconhecimento dos cidadãos uns pelos outros. A democracia é processo. Precisa-se fazer com que os cidadões compreendam e interessem-se pela vida política. O direito de voto pouco significa se poucos recorrem a ele e se o fazem sem entender o que está em jogo. A democracia parte de instituições fundamentais e completa-se com a reinvenção contínua estimulada pelos acontecimentos.


Escolher a democracia significa também optar pelo liberalismo?


Claude Lefort - Sim. Fala-se do liberalismo como uma teoria limitada à defesa da empresa privada e do livre comércio. Nesse sentido, a democracia é muito mais do que isso. Mas não se pode arrancar a democracia de um quadro de liberdade de empresa e comércio. A evolução do capitalismo mostra que os seus efeitos destrutivos foram limitados pela democracia, com a qual a redução à luta pelo lucro é incompatível. A democracia impõe regras e encarrega-se da proteção social, dos serviços públicos e da solidariedade. Em contrário, a sociedade mergulharia na ditadura. Na origem, o liberalismo não era apenas uma teoria econômica, mas, no século XVII, na Inglaterra, com pensadores republicanos, uma preocupação com a emancipação em relação à autoridade religiosa e a obtenção do reconhecimento das liberdades civis e individuais. O liberalismo de Milton e, mais tarde, de Spinoza nada tem a ver com o economicismo. Em vez de abandonar o pensamento liberal aos adversários, sustento que se deve defendê-lo contra o neoliberalismo.


O senhor foi favorável à utilização de acordos econômicos para pressionar a URSS a permitir a saída de judeus do seu território. Mais tarde, o senhor afirmou que a medida era comparável a recursos contra ditaduras como a chilena. A manutenção do embargo contra Cuba, portanto, é justa?


Claude Lefort - Não possuo os meios para afirmar. Não sei se isso será mais favorável para o desenvolvimento de um regime democrático em Cuba. Não posso responder, pois não tenho as informações necessárias. Mas é certo que a esquerda louvou Cuba e esta só se manteve graças à ajuda da URSS, construindo um regime equívoco sob a justificativa de que era o socialismo.


Os intelectuais perderam com a crise das utopias na medida em que o fascínio dos gurus dimininuiu?


Claude Lefort - É difícil de julgar o estado da mentalidade dos intelectuais de hoje. Mas é ótimo que tenha havido a ruptura com as ilusões do comunismo e com com o poder dos mestres. Não sei se compreendem, na atualidade, a democracia e os elementos em jogo no político.


Nas transformações, ilusões e decepções deste época, de pleno movimento, os meios de comunicação de massa têm grande responsabilidade?


Claude Lefort - Não é possível responsabilizar os meios de comunicação pela espetacularização do mundo e pela degradação dos costumes, pois eles respondem às expectativas dos consumidores. A questão remonta à filosofia antiga: são os demagogos que enganam o povo ou é o povo que faz os demagogos? Os meios de comunicação dispõem de capacidade de influência e quando o desejo de sedução da audiência, através do riso ou do choro, é enorme, o que não se discute, desfaz-se a capacidade crítica. A responsabilidade, porém, também é das pretendidas vítimas. O povo não é inocente.


(entrevista republicada em meu livro "Visões de uma certa Europa", Edipucrs, 1996).