Velho continho de natal
– Deu pra mim. Larguei. Vou pendurar as chuteiras. Fui.
– Papai Noel, o senhor não pode fazer isso.
– Estou estressado, saturado, de saco cheio.
– Que bom, Papai Noel. Então é só distribuir tudo por aí.
– Estou de saco cheio, menino, mas de sacola vazia. A crise financeira internacional me pegou. Além disso, estou cansado dessas viagens perigosas ao Brasil. Uma bala perdida matou uma das minhas renas. É cada vez mais difícil ter acesso às casas, todas gradeadas. Até na chaminé tem grade. Já fui seqüestrado nove vezes.
– Puxa, Papai Noel, mas o senhor é muito importante para nós. Natal sem o senhor não vai ter graça. Por favor...
– Hummm. Não tenho mais saco. Ninguém acredita em mim.
– Eu acredito. Meus amigos acreditam. Vovó também...
– Qual é a tua idade, guri?
– Seis anos, Papai Noel.
– Logo vi.
– Por favor, Papai Noel, precisamos tanto do senhor...
– Não adianta insistir. Vou largar. Não agüento mais passar tanto calor com essa roupa pesada, essa barba incômoda e toda essa tralha adequada ao frio. Por que não posso andar de calção, de sunga, de camiseta? Fizeram churrasquinho de uma das minhas renas e ainda venderam como se fosse lombinho canadense. Vou me aposentar.
– Ora, Papai Noel, é melhor pensar bem. Vovô me disse que a aposentadoria do INSS é uma merrequinha. E que ele morre de tédio sem nada para fazer. Já pensou até em ser Papai Noel voluntário numa escola aqui do bairro.
– Não adianta. Vou vazar. Cansei de ser um instrumento do consumismo desenfreado. Exploram a minha imagem como garoto propaganda de tudo quando é bugiganga, não me pagam coisa alguma e ainda desvirtuam a minha mensagem.
– Não, Papai Noel, não é assim. Minha mãe é psicanalista. Meu pai é publicitário. Eles discutem muito sobre a sua imagem. Sei do que estou falando. Já fui a vários congressos com eles. O seu papel é fundamental para a formação dos nossos valores e para a nossa imaginação.
– Você é muito precoce, menino. Não sei se faz bem para uma criança ter pai publicitário e mãe psicanalista.
– Por favor, Papai Noel, não nos abandone, cumpra o seu papel. O Senhor é tudo para nós no Natal.
– Eu não sou Jesus Cristo. Eu não sou Deus.
– Eu sei, Papai Noel, todo mundo sabe, até minha irmã de três anos já sabe disso, mesmo sendo meio esquisita. Se a gente fala em presentes, ela pega logo a carteira do papai e ri. O senhor não é Deus, mas é um santo.
– Santo de casa não faz milagres...
– O senhor é globalizado e faz milagres por toda parte.
– Menos, guri, menos, sem etnocentrismo, pelo amor de deus. Tem gente no mundo que nunca ouviu falar em mim.
– Tudo bem, Papai Noel, pode ser, mas eu e milhões de crianças acreditamos no senhor. É o que importa. Vai querer nos decepcionar? Por que não faz terapia com a minha mãe? Isso que o senhor está sentindo é muito comum. Todo mundo tem crise existencial e profissional. Tem até uns remedinhos pra ajudar. Já tomou prozac?
– Parece que já tem coisa mais nova do que prozac...
– Tudo bem, tudo bem, o importante é o resultado...
– Está bem, menino, já me convenci. Vou continuar...
– Eba!!! Papai Noel, o senhor não existe!