Tudo aconteceu em 1968. Não, não foi o ano que não terminou. Foi apenas o ano em que tudo começou. Os estudantes rebelaram-se em Paris, em Berlim, no Rio de Janeiro, nos Estados Unidos. Por toda parte. Os trabalhadores foram atrás. As hierarquias ruíram. Os heróis foram destronados. Meu amigo Michel Houellebecq, maior escritor francês da atualidade, de quem traduzi os belos “Extensão do domínio da luta” e “Partículas elementares”, culpa 1968 por uma quebra de paradigmas. Os rebeldes teriam derrubado certezas e colocado um vazio no lugar.
O narrador de “Partículas elementares” é cruel e considerado por muitos críticos como um reacionário. Ele descreve as coisas assim: “O desejo sexual volta-se essencialmente para os corpos jovens, e a ocupação progressiva do campo da sedução por garotas muito novas não foi, no fundo, mais do que um retorno à normalidade, um retorno à verdade do desejo, análogo ao retorno à verdade dos preços posterior a uma alta anormal da bolsa. Apesar disso, as mulheres que tinham 20 anos por volta de 1968 se acharam, chegadas aos 40, numa situação insuportável. Geralmente divorciadas, quase não podiam contar com a relação conjugal — calorosa ou abjeta — cujo desaparecimento fizeram tudo para acelerar”.
Os jovens estavam cansados da dominação dos velhos. Os franceses não toleravam mais Charles de Gaulle, a figura tutelar da nação, instalado novamente no poder desde 1958. Os tchecos não suportavam mais o stalinismo soviético. Os negros americanos precisavam por fim às discriminações racistas legais que ainda pesavam sobre eles. O autoritarismo fingia-se de autoridade. A dominação masculina tomava ares de paternalismo “natural”. Os catedráticos impunham as suas ideologias como saber pretensamente neutro e técnico. As mulheres ousavam sonhar com liberdade sexual em tempos de disseminação da pílula anticoncepcional. Em março, em Nanterre, na periferia de Paris, deu-se o primeiro enfrentamento entre estudantes, polícia e dirigentes universitários. Em maio, o antigo regime cairia sem aviso prévio.
Maio de 1968 começa em janeiro, em fevereiro, em março, em abril, antes ou depois, dependendo do lugar, da explosão francesa. A maior tragédia, com centenas de mortos, aconteceria no México. Os ventos de 1968, vindos do fundo dos tempos e das transformações do pós-Segunda Guerra Mundial, impulsionaram o feminismo e o combate ao machismo, à homofobia, ao racismo, ao elitismo cultural e acadêmico, a tudo que se afigurava como modo de reprodução do macho branco ocidental. No Brasil, 1968 foi ao, mesmo tempo, momento de rejeição frontal à ditadura militar e, em dezembro, aprofundamento do regime.
O que resta de maio de 1968? Para alguns, o pior. Para outros, nada. Para muitos, mesmo que nem todos saibam disso, tudo. O mundo mudou radicalmente naquele ano. Não da maneira que os seus protagonistas talvez desejassem. Não foi uma mutação política, embora tudo seja até certo ponto político, mas acima de tudo uma metamorfose antropológica. O Caderno de Sábado esmiuçará esse legado amanhã. Conversei com Michel Houellebecq. Ele resumiu seu olhar:
– Não estou nem aí para maio de 68. A única coisa que me alegra é saber que não haverá comemoração de 60 anos nem de 70 anos. Nos cem anos, já estarei morto.