Viajar não é preciso
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Viajar não é preciso

Corre-se o risco de balançar

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      Georges Duby foi um dos maiores historiadores do século XX no mundo. Tenho um livro de sua autoria, “A história continua”, autografado por ele. Uma vez, quando era correspondente de jornal em Paris, pedi-lhe por carta uma entrevista. A comunicação naquela época era assim. Tocou o telefone em meu “studio” violeta de 25 metros quadrados em Montparnasse. Era ele. Queria combinar o encontro no Colégio da França, a mais prestigiosa instituição de ensino francesa, sem emitir diplomas nem fazer chamadas, na qual era professor. Fiquei encantado com a sua simplicidade. “Aprendi a ser simples viajando”.

      Essa foi a sua explicação para o meu comentário sobre o fato de ele nem sequer ter solicitado a uma secretária para fazer a ligação. Pedi que me dissesse mais sobre essa sua percepção das viagens: “Quando estamos fora de casa, sozinhos, perdemos a pompa e temos de nos virar”. Era como eu me sentia em Paris ainda que a pompa nunca tivesse feito parte da minha vida. De qualquer maneira, eu tinha de me virar ainda mais do que em casa. Quando encontrei Duby, ele me deu seu livro e me indicou um capítulo intitulado “Viagens”. Releio: “Pois estou convencido que o historiador ganha em não se manter fechado. Ele deve passear-se através do mundo, por entre a diversidade das maneiras de viver e de pensar. A ‘gozar de tudo, a apropriar-se da criação como de uma coisa que é sua’, como Alexandre Dumas diz do viajante, este, longe de perder o seu tempo, enriquece-se. Não teria certamente ido tão longe na interpretação dos forais, das crônicas, dos sermões, se tivesse permanecido no meu canto”. Duby foi um grande medievalista.

      Coordenou a espetacular coleção em cinco volumes “História da vida privada”. Sempre que viajo para lugares que ainda não conheço, penso em Duby e em nossa conversa naquela tarde dos anos 1990. Um historiador que citava Alexandre Dumas! Ele riu suavemente quando lhe falei disso. A história está em todos os lugares, ensinou. Por exemplo, na vida cotidiana, na maneira de comer, de vestir-se, de separar público e privado, de arrumar a casa, de trabalhar e de ocupar o tempo livre. Entramos definitivamente na era das viagens, que outro francês célebre, Claude Lévi-Strauss, grande viajante, odiava. Viajar não é preciso nem exato. Tornou-se obrigatório. Por que viajamos?

      Em busca de lazer, de novidade, de acontecimentos, de diferenças e de fuga da rotina. Cada vez mais, porém, encontramos o mesmo por toda parte. Sempre me lembro de uma amiga baiana que, em Budapeste, no distante ano de 1991, só se sentia tranquila, enquanto esperávamos o trem para ir embora, dentro de um McDonald’s com sua estética global. Tudo o mais lhe parecia muito perigoso. Na fronteira entre a África do Sul e Moçambique, no controle de passaportes, onde se amontavam centenas de pessoas aflitas, o motorista nos tranquilizou: “Aqui, com dinheiro, tudo sempre corre bem”. Nossos papéis estavam em dia.

      Estamos na República Dominicana. Um historiador deve “passear-se” para ampliar seus pontos de vista. Permaneço fiel a mestre Duby.